S01EP06 – “A falência”, de Júlia Lopes de Almeida (1901)

Debate

Nesse episodio, Paula Dutra e eu discutimos a obra “A falência”, de Júlia Lopes de Almeida (1901)

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Para participar e enviar mensagens de voz: https://anchor.fm/julianabrina/message

Livro discutido no episódio


Livros sobre a autora


Transcrição do episódio

“Olá,

Meu nome é Juliana e esse é o podcast Clássicxs sem Classe, no qual eu discuto clássicos escritos por mulheres pouco lidas, não traduzidas, excluídas do cânone ou esquecidas, bem como clássicos da literatura queer. Tudo sem a menor classe, claro.

No episódio anterior, falei sobre a autora Aphra Behn, e reiterei o convite para que vocês lessem comigo e com a Paula, do blog Pipa Não Sabe Voar, o romance “A falência”. No episodio de hoje, como prometido, Paula e eu vamos discutir essa obra.

Mas, antes disso, eu gostaria de agradecer a todos que tomaram seu tempo para ouvir e comentar o episodio sobre a Aphra, e gostaria de agradecer a Leticia Bonfim do perfil @leticiabonfi, Ana Claudia Aymore do perfil @primeirapessoa_, o perfil @the.book.project, Marcia Huber do perfil @marcia.dch, Lili do perfil @lilieolivro, o perfil @naoresenha, e a Aline Aimee @alineaimee, compartilhado o podcast no Instagram, e Gisele Eberspacher, por ter compartilhado o podcast em seu canal do Youtube. Obrigada!

Se por acaso você também compartilhou o podcast e eu não vi, obrigada! E so me marcar na publicação, para que eu possa ver e agradecer aqui da próxima vez.

A Leticia Bonfim escreveu sobre o livro em seu perfil do Instagram e também falou sobre ele em seu canal do Youtube, a Marcia escreveu sobre o livro em seu Instagram, o Wolney Fernandes escreveu também no Instagram sobre a obra, e a Aline Aimee resenhou o livro no Youtube. Vou deixar todos os links no box de descrição desse episodio. Obrigada, gente!

Mas vamos agora ao que interessa, que e nosso debate sobre a obra:

“A falência”, de Júlia Lopes de Almeida (1901)


“Suponhamos, por exemplo, que a nossa honestidade é um casaco preto e que a, das senhoras é um vestido branco. Tudo é roupa, têm ambos o mesmo destino, mas que aspectos e que responsabilidades diferentes! Assim, o nosso casaco, ora o vestimos de um lado, ora de outro, disfarçando as nodoazinhas. O pano é grosso, com uma escovadela voa para longe toda a poeira da imundície; e ficamos decentes. A honestidade das senhoras é um vestido de cetim branco, sem forro. Um pouco de suor, se faz calor, macula-o; o simples roçar por uma parede, à procura da sombra amável, macula-o; uma picadela de alfinete, que só teve a intenção de segurar uma violeta cheirosa, toma naquela vasta candidez proporções desagradáveis… Realmente, deve ser bem difícil saber defender um vestido de cetim branco que nunca se tire do corpo. Eu não sei como elas fazem, e, francamente, não me parece que a vida mereça tamanho luxo.” – Júlia Lopes de Almeida, A falência 


Debate

Juliana: Bom gente, eu estou aqui então com a Paula Dutra que aceitou aqui meu convite para que pudéssemos discutir a obra da Julia Lopes de Almeida. Eu espero que ela participe mais aqui podcast, mas primeiro gostaria que ela se apresentasse. Ei, Paula, o que voce quer dizer para os nossos ouvintes?

Paula: Oi gente, bom dia! Obrigada, Ju, pelo convite, E muito bom conversar com você sobre livros como sempre. Estou muito feliz de conversar com você hoje sobre a obra da Julia Lopes de Almeida. Para quem não me conhece, eu sou a Pipa, do blog Pipa que não sabe voar.

J: Bom, a gente pode começar fazendo sinopse do livro, né. Algumas pessoas leram esse livro com a gente: a Aline Aimee, o Wolney Fernandes, Leticia Bonfim, Marcia Huber – essas foram as pessoas que eu vi, assim, pode ter tido mais gente que leu, mas aí não me marcou e não vi, não sei. Bom, o romance se passa na República Velha durante, mais especificamente, o Encilhamento, acho que bem no ano de 1891, e gira em torno da família de um dos nossos protagonistas, que é o Francisco Teodoro. Ele é um emigrante português que emergiu socialmente, foi para o Brasil, começou a trabalhar como humilde caixeiro, e e veio enriquecer e fazer fortuna como comerciante de café no Rio de Janeiro. E esse é o início do romance, a gente ja começa – eu acho aquela cena inicial muito forte, muito detalhada – a gente já começa entrando no armazém do Francisco e entrando no meio do trabalho. Eu acho muito bonita a descrição que ela faz disso. O Francisco então é proprietário desse armazém exportador de café e, no momento da acão, ele vive num palacete do Botafogo na companhia da esposa Camilla e de quatro filhos, de uma agregada que se chama Nina – uma sobrinha da Camila que foi abandonada pelo pai, parece que a mãe teve um passado assim meio no escuro. E o casamento do Francisco com Camilla – chamada de Mila – meio que foi um casamento de conveniência: ela era mais pobre e então Francisco a retira da pobreza e também começa a sustentar a família dela, os pais e os irmãos que moram em Sergipe. E, logo nos dois primeiros capítulos, a gente começa a entrar na vida dessa família no Rio de Janeiro e a gente começa a sentir que é uma vida meio assim ostentatória. E eu já tive desde o inicio um sentimento assim meio negativo, assim como se a vida dessa família estivesse permeada por uma falência moral  – ai o título novamente do livro.

P: Também senti isso, e eu gostei muito das descrições da Júlia Lopes de Almeida. Isso que você falou, até o cheiro ela descreve: o cheiro do café e do dos homens suados carregando aquela saca de café. Ela faz realmente uma descrição que nos transporta para a cena. E o Francisco, esse homem totalmente vaidoso: ele queria esbanjar, não poupava dinheiro com comida, com festa, com presentes para a família, para mostrar que ele tinha poder.

J: Esse eu acho um ponto bem importante.

P: Eu vi realmente essa parte da falência de que voce falou: uma falência moral, de um início que eles estao vivendo uma vida mais a pensar no que os outros estão achando da vida deles, mais preocupado, com a imagem que estão passando do que com o que de fato eles viviam ali, o próprio casamento mesmo. Algo muito de aparência, como você falou, pelo dinheiro, já que eles eram de classes diferentes. E também em relação aos filhos.

J: é, isso que você falou do Francisco, voltando aqui um pouquinho, de ele esbanjar dinheiro como uma forma de poder: eu acho que esse é o primeiro elemento ali que vai trazer essa falencia pra essa família. Em nenhum momento, a Camila se sente realmente amada, é toda uma relação de controle, de poder mesmo, e tudo parece que se passa assim sem Francisco realmente perceber. Aí voce começou a falar da família: o Mario,  o filho primogênito do casal, a vida dele, como ele já começa a ter uma vida de dissolução moral, de boemia, de esbanjar dinheiro também. Então eu acho que esse primeiro ponto e bem, bem marcante na história. Por outro lado, não acho que ela, nenhum dos personagens ela faz assim de uma forma muito crítica. Eu acho que ela faz personagens bastante complexos. O Francisco tem esse lado negativo que a gente já vê de cara, desse materialismo de ficar se comparando com os rivais de negócios, com o Gama Torres. Mas, por outro lado, eu não sei, eu pelo menos não achei que ele fosse um personagem mau, e tive uma certa empatia por ele, especialmente – aí a gente vai dar spoilers aqui – especialmente depois que ele se mata. E aí a própria visão da Camilla sobre ele muda também. Eu gostei também dessa parte do romance em que a autora mostra os defeitos dos personagens, mas abre para uma complexidade.

P: Sim, isso ela faz muito bem. Gostei também, porque eu não consegui sentir raiva do Francisco Theodoro em nenhum momento.

J: Eu queria sentir raiva tambem.

P: E a própria Mila: no final, eu estava sofrendo – tadinha, ficou sozinha. E percebeu que cometeu um erro, que deveria ter dado importância ao casamento, ao homem que ele era. Ela faz uma reflexão depois com a morte dele.

J: é, tem um crescimento, os personagens têm uma evolução, mesmo que pequena – porque a gente fica com os personagens muito pouco, né. Mas eles não estao parados, eles têm uma evolução, eles mudam – seja pra pior, seja pra melhor. Eu achei também, e isso é muito dificil – não é todo escritor que consegue fazer isso. Como é que essa escritora foi esquecida, mesmo tendo um tratamento tão sutil para essas complexidades.

P: Realmente.

J: A gente pode falar também dos personagens: a Nina, eu acho um personagem tão importante também, essa menina que é agregada da família e que no final vai ser tão importante, porque vai ajudar, vai fazer parte dessa parceria de mulheres que vai tentar se sustentar após a falência.

P: E ao mesmo tempo cumprindo o destino de mulher, de que ela fala muito: seu destino de mulher, de cuidado, de cuidar da casa. Tem uma fala, uns trechos em que ela fala um pouco isso, e de não ser amada.

J: Dá uma certa vontade de sacudir a Nina: vai embora, minha filha, voce pode ser livre agora, sai dessa, vai viver a sua vida! Mas nao, ela assume a responsabilidade que o Francisco nao assumiu – o personagem mais velho, o cara que era responsável pela falência financeira da família pelo menos, ele vai e se exime disso ao se matar. E a Nina vai lá e assume essa responsabilidade, e as outras mulheres também.

P: E uma personagem que me encantou muito foi a Ruth, porque ela sempre tinha um olhar muito sensível para cada situação. Em cada cena, mesmo que pequena, ela trazia um olhar de muita sensibilidade para cada coisa: apreciando o céu, ou com a música que emocionava alguém, o que a fazia pensar. Até o próprio sentimento mesmo com o pai. Com a personagem da Sancha, que era a menina negra que sofria abuso da família, era espancada, e ela fala: foge! Ela  era essa voz também que defende as mulheres.

J: Ela consegue ser diferente assim um pouco, sair um pouco do que é normal para uma menina da classe dela e do meio em que ela viveu. E isso também tem a ver com a imaginação, com a criatividade: ela consegue sair daquilo a que ela está acostumada e ver uma coisa diferente que ninguém está percebendo ali. Por outro lado, a Ruth – e isso é uma coisa que a Aline Aimee comentou no texto dela, não sei se já devemos trazer isso de uma vez – mas da linguagem racista. Isso a Aline no vídeo falou queincomodou um pouco. De fato, isso me incomodou também: eu acho que, às vezes, a Ruth tinha um pouco isso assim, tinha uma linguagem, tinha um jeito racista de ver a Sancha.

P: Sim, no início, quando ela descreve a feiúra, ela associa ser negra a sujo. No início, mas ela também se toca daquela situacao, e ela acha que somos todos iguais. Tem uma parte que ela fala: o nosso coração é igual.

J: é, parece que ela cresceu ai também.

P: Do primeiro momento, que talvez fosse assim bem claro, mas ela se enternece com aquela, com outro ser humano que está sofrendo. Mas o livro traz isso, o próprio o uso do termo mulata, que já não se usa mais, e que que no texto inteiro,  e vários personagens falam isso…

J: é, essa foi uma parte realmente que a Aline apontou, e tem que apontar mesmo, porque realmente incomoda. E eu não sei se isso é consciente da escritora, se ela quis representar a complexidade mesmo daquela sociedade: que, logo após a abolição, ainda era racista (e ainda é), esse racismo forte, ou se foi inconsciente da escritora. Isso eu não sei.

P: eu também não, mas acho que talvez seja um reflexo da sociedade mesmo: naquela epoca, esse termo era usado, e so foi questionadd  depois de muito tempo. Então, talvez  até inconscientemente, ela o usou, não sei se como uma crítica.

J: Não dá para a gente saber, ne, não está muito claro no romance se e uma crítica mesmo – a despeito do fato de que ela representa tudo de forma complexa mesmo, ela não passa um verniz em nada, pelo menos nesse romance.

P: Sim, a própria opinião do Francisco Teodoro sobre as mulheres: ele é bem machista, bem contrario a emancipação da mulher.

J: é, tem um diálogo ótimo, né – que, aliás, é com outra personagem, a Catarina, irma do Rino. Essa personagem, ela me intrigou: ela aparece muito pouco, mas ela me intrigou demais. E aí, nesse diálogo, ela fala: “Mas você não gosta de mulheres emancipadas?” Aí é isso que você falou, o personagem fala: “nao, a mulher tem que cuidar da família e viver para os filhos” e tal. E eu tive a impressão, neste diálogo, e depois, nos diálogos que ela tem com o Rino, que ela era a favor – a Catarina – da emancipação da mulher nesse tempo, especialmente a educação da mulher. Mas nao ficou tão claro, porque depois ela fala “ah, sera que devo me casar”. Não sei se voce se lembra desse diálogo, o Rino responde: “voce e muito indomavel, muito franca, e não deve se casar”. E ela fala, “mas, e aí, não tem outra opção”, ai ele muda de opinião: “ah, então casa mesmo”…

P: Mas eu achei que ele fala “não, entao permaneça livre, você e indomável, não se case”. Então, ele mesmo percebe que ela não se encaixaria naquele papel – justamente por questionar. Tem um momento em que ela fala: “quantas mulheres que você conhece que sabem ler?” Tem uma fala dela em que ela percebe isso. Da votação, ele chega a perguntar se ela queria voltar –  eu acho que ela é esse contraponto, para mostrar uma outra perspectiva das mulheres. Eu gostei muito dela também.

J: é, eu achei muito interessante a escritora usar esse personagem para isso: porque ela também não é panfletária, ela deixa meio que em aberto: ela não casa, mas também não fala tão mal assim o casamento. E ela fala dos problemas da mulher nao ter acesso a educação, nao ter acesso ao voto, mas também não tem aquele tom panfletário, sabe. Por isso, eu achei a escritora bem inteligente, ao usar essa personagem para abordar esses temas, mas sem fazer com que a história fosse algo muito transgressor para aquele tempo, sabe.

P: Ela é bem sutil.

J: O que também pode ser criticado, nao sei. Eu li alguns artigos de pessoas que falam que é um feminismo muito brando o da Júlia Lopes de Almeida. Nao sei, eu realmente não… Eu vejo isso muito em escritoras do século XIX: elas mantém aquela estrutura tradicional, aquele narrador que parte de uma tradição de mulher subserviente, e de não querer criticar abertamente a sociedade – mas aí, contam uma história que não tem como a gente nao criticar essa sociedade, sabe. E eu vi isso um pouco na Julia – acho que eu estou viajando aqui, vamos voltar para o ponto… é, bom, eu acho que te interrompi também…

P: Não, foi o que eu estava falando, da emancipacao da mulher. Eu concordo com você, eu acho que a gente também não pode esperar que elas, mulheres daquele século XIX, fossem super feministas, né. Muito elas já estão fazendo, dentro do possível, pelo menos estao subvertendo a narrativa dentro do que elas conseguem: seja nessa personagem da Catarina, que vai falar algumas coisas e questionar. Ela tenciona essas questões, mas dentro do que era possível, talvez, naquela época, não sei.

J: Ate para serem publicadas, para ganharem esse espaço que, querendo ou não, é um espaço público, né. Isso é uma coisa que eu vejo muito nessas escritoras: parece que é uma história supertradicional, ela começa a tradicional, até a personagem tem um fim tradicional – casa e tal – mas, no final do livro, a gente fica com a impressao de que está tudo errado nessa sociedade… E eu acho muito inteligente das escritoras que conseguiram fazer isso: ter uma postura crítica sem afastar leitores que seriam, a princípio… que veriam essa postura crítica, a princípio, como negativa.

P: Verdade.

P: Tem um ponto também que eu achei interessante de mencionar, ja que a gente está falando do feminismo. No final, quando a Camila tem um neto – o filho do Mario nasce – e ela resolve propor ara o Gervasio casamento, ela vai questionar a questão da idade: “será que agora, que eu tenho um neto…” Ela não podia envelhecer: se você já tem um neto, você já não está mais disponível para o casamento. Ela traz a questão também da idade com um ponto bem sutil. Essa cena é bem rápida, mas ela faz essa reflexão do envelhecimento para as mulheres, de como seria vista a decisão de se casar.

J: é, esse livro tem tantos elementos assim, que mostram a vulnerabilidade e a opressão da mulher: ate esse detalhe, ne. Cada personagem mostra um tipo de vulnerabilidade ou mesmo de sujeição ou opressão da mulher: a Nina, aquela menina que foi abandonada pelo pai; também ha uma crítica à mãe dela – a gente não sabe exatamente o que aconteceu, mas aparentemente a mãe é vista de uma forma negativa pela sociedade; a mãe do Rino e da Catarina também, que foi assassinada pelo marido porque foi a adúltera… Então é cheio de elementos aí que se você quiser ver, você vê uma crítica mesmo a essa condição vulnerável da mulher naquela sociedade.

P: Eu concordo plenamente. Isso de a mãe da Catarina e do Rino é muito interessante, porque ela mostra como a mulher é sempre a culpada; como o homem, mesmo com o julgamento, foi inocentado, apesar de ele ter cometido um feminicidio. E como isso pesa sobre a vida de Catarina e Rino, ela carrega esse peso de ser sempre lembrada como  aquela que teve uma mãe que foi adúltera…

J: é, ninguém se lembra que a mãe foi assassinada, essa parte assim é apagada. E engraçado que isso me lembra também… agora eu nao lembro se… acho que é no início do livro: os personagens tem um diálogo que fala da duplicidade dos códigos de conduta. Para os homens, as exigências morais seriam como um tecido preto – se sujar, não dá pra ver direito; e para as mjulheres, as exigências morais assim seriam como um tecido branco – qualquer coisinha, voce ve uma mancha.

P: Verdade, a imagem é perfeita, realmente. Tem essa questao da pureza, que era o que se prezava: você tem que ter a imagem imaculada, ainda que os seus valores fossem outros, enfim.

J: Sabe-se la o que esta por trás disso, né, o que importa é o que as pessoas acham… que é o que voce falou no início: todo mundo preocupado com o que os outros pensam. Isso acaba levando à derrocada moral, pelo menos do Francisco, com certeza, que ficava se comparando com Gama Torres, e decidiu fazer esses investimentos no mercado financeiro que deram errado… Quanto ao adultério da Camila, o que você achou?

P: Nossa, estou aqui pensando ainda sobre esse adultério da Camila… porque tem a coisa do romantismo também. Mas tem aquela coisa de monstrar que, ao mesmo tempo, ele só estava interessado nela enquanto ela era casada. porque, depois que o marido se suicidou, ela também perde o interesse.

J: é, ele tambem nao quis ajuda-la, ne.

P: é, e aí revela que ele também era casado e ela nunca soube, então também foi traída. Mostra também uma coisa de um jogo assim, não sei, e ela fica pensando sobre isso depois: ela se questiona, quando o marido morre, e ela vai refletir sobre o tanto de entrega que não teve, enfim.

J: Como estava tudo na cabeça dela, né…

P: Era uma idealização também aquele amor romântico, apaixonado, não sei.

J: Eu, para falar a verdade, odiei esse personagem do Gervasio, assim. Cara, eu achei ele tao chato, aquela pessoa assim, sei la…

P: E ele ditando as coisas para ela, dizendo o que ela tem que gostar, que flor prefere, como arrumar ela deve arrumar a casa…

J: Um cara mediocre assim… não sei como ela gostava desse cara… O Rino parecia um cara muito mais interessante…

P: Verdade… E esse final aberto também, eu gostei muito.

J: E, o que sera que o Rino quis dizer… Tipo assim, “ah, ela não precisa de mim” ou “eu não preciso dela, eu nao gosto dela…” Ficou muito aberto pra mim, sabe.

P: Tipo, “vou procurar ela pra quê?” Mas deixa em aberto, eu fiquei sem saber se ele ia procurar ou não… Mas achei interessante.

J: Não, é, esse final eu achei ótimo também. Não esperava um final tão aberto, tão desiludido assim, sabe. Porque o relacionamento da Camila e do Gervásio me fazia sentir que estava num caminho romântico assim… Aí depois, não!

P: Uma reviravolta.

J: Uma reviravolta, e… da parte do adulterio especificamente, eu acho que ela deixa bem em aberto essa complexidade: porque a gente critica a Camila, né, ela é também um pouco volúvel, sei lá, auto-centrada… mas, por outro lado, a gente vê complexidade: tipo, ela não teve amor na vida dela, casou porque era o tinha pra melhorar a vida dela e da família. Ai e vem esse cara, e ela talvez não tenha muita experiência e fica encantada com o cara dizendo um tanto de coisas, de poesia, de moda, de sei la o que…

P: Ela traz essa coisa do romance, ne

J: A aparência da coisa, ne

P: e é interessante isso, de a gente pensar nesse casamento que ela tinha com o Francisco Teodoro, porque é um casamento de fachada, mas a gente também não pensa assim, “ah, foi por interesse”: na verdade, foi um arranjo, né, por ela ser mais pobre do que ele. Era conveniente, mas é uma violência também contra a mulher isso, porque no final ela fala… tem até um trecho que eu marquei, que “o próprio marido nao obtinha dela mais do que o carinho frio de condescendência”. Então, tipo assim, ela estava ali naquele casamento também sofrendo muitas violências. Se a gente pensar que não era nada por amor e que era uma obrigação

J: Ate porque ele traiu ela: no início, ela até justifica isso, né. Foi uma desilusão tão grande: ela ate justifica o próprio adultério dessa forma, né. Entao a gente já ve que o casamento não era realmente uma coisa saudável para ela, nem para Francisco talvez. Mas o que eu achei… outra coisa interessante também é que, depois que ele se mata, aí ela cai em si, meio que se… não sei se ela se arrepende do adultério, mas se arrepende de algumas formas como tratava o Francisco, como a relação se desenrolava. Mas, de uma certa forma, ela tem uma certa libertação, assim…Eu vi dessa forma pelo menos: ela não tem mais o casamento que a prende, e aí ela vai partir para o trabalho, para a parceria com as outras mulheres, e para sustentar aquela família. E eu não deixei, eu não consigo deixar de ver isso também como uma certa, uma certa libertação de um esquema. E eu também acho que quando Gervásio diz não para ela, isso … é um choque, afinal eu acho que ela o amava… mas, de certa forma, ela tem também uma certa libertação, né: ela não vai, não fica se fazendo de vítima – não, ela recobre logo o amor-próprio dela e vai pra frente, vai educar as filhas dela, e vai tentar manter a família. E isso eu achei fantástico também da história.

P: Que ela fica até mais forte, né, depois disso que ela chama de segunda viuvez, quando o Gervasio diz não. Realmente. E é interessante essa coisa do filho também: o filho tem um papel. Você fala da libertação, quando o marido morre, e o filho se casa, é como se aquele peso, aquela cobrança por ela está vivendo o amor dela, não existisse mais: “está longe, eu não precisa mais me sentir aprisionada.”

J: Foi embora, né, aquele homem da vida dela, e ela, e engraçado que ela não se sente pressionada pelas mulheres na vida dela, né. Assim, essa pessoa que fica julgando moralmente é o filho, é o homem.

P: é o homem, e é ele mesmo também que volta com a autoridade masculina – ela chega a falar assim: a autoridade masculina – e vai dizer que as irmãs têm que ficar com uma casa, ele meio que muda toda a configuração, e isso é meio que imposto porque ele é o homem, ele vai determinar, mesmo que ela não quisesse.

J: é, e aí também tem a sensação que ele impôs que ela deveria casar com Gervasio e não podia continuar do jeito que estava. Mas ai ela não continua do jeito que estava e também não casa! Isso eu acho uma decisão muito forte também.

P: é, achei que ela cresce muito, realmente, depois disso – a libertação tem um sentido de ganhar mais força, ate em relação à própria vida: “não sei fazer nada, eu preciso fazer uma coisa, eu vou cuidar das minhas filhas, eu não vou aceitar que meu filho determine que eu não posso ficar com elas.”

J: E também: “Eu não vou aceitar ficar nessa situação com esse cara, entao tchau! Vou cuidar da minha vida.” Isso eu achei bem legal também. E é engraçado que, no início do livro… aí eu não sei, pode ser viagem minha … no início, em um dos primeiros diálogos da Camila como Gervásio, ele vai emprestar um livro pra ela. A Julia Lopes de Almeida nunca fala que livro que é, ela só fala, o Gervasio fala que “é um livro que tem a ver com um romance tipo deles”, com um adultério. E, de cara, a Camila já falar: “não quero ler isso, vocês homens escritores sempre arranjam um jeito de colocar a culpa nas mulheres. Então nem me mostre o livro, que eu não quero ler.” Gente, eu não pude deixar de pensar no Madame Bovary do Flaubert. Pode ser que ela não esteja falando desse livro; mas, se estiver, isso é uma alfinetada muito interessante nessa obra…

P: é bem provável que fosse esse livro, já que ela lia muitos autores franceses…

J: Exato! Eu achei, até porque, se você for olhar na história da Júlia, não é a mulher que se mata; é o homem que se mata. A mulher vai lá e vai se virar, em uma situação muito pior do que se o cara não tivesse se matado. Sei lá, eu posso estar viajando, né, mas eu achei também esse ponto interessante. Se a gente for pensar nessas narrativas de adultério feminino, em que vai lá e a mulher se mata… E aí, na Júlia não: a mulher não se mata e cresce e ganha uma certa liberdade dentro daquilo que a vida permite para ela.

P: Com certeza. Acho que é uma grande subversão, se a gente pensar nesse aspecto da morte, do suicídio, que geralmente é das mulheres, por não caberem, por não se encaixarem mais naquele mundo. Aí dessa vez ela é um homem que faz isso.

J: E a mulher, a mulher vai lá e se vira, tipo assim, não fica se fazendo de vítima, ou auto condescendente: “Nossa, cometi um erro…” Não, vai lá e “tá, cometi um erro, mas vou continuar minha vida aqui.” Eu acho isso muito, muito forte, essa decisão. Você falou de subversão: outra coisa que eu acho – e aí pode ser viagem da minha cabeça – que pode ser um pouco subversiva é o fato de que, nessa situação de problema financeiro, nas tramas em geral, para sair de um problema financeiro, uma mulher se casa. Na Júlia, quem se casou foi o Mário: ele escapou do problema financeiro porque se casou com uma mulher mais rica, e as mulheres é que foram trabalhar. Isso eu acho assim também uma subversão muito interessante nesse padrão de enredos que a gente vê, né: não é a mulher que vai casar com um cara rico, não: é um homem, e a mulher vai lá trabalhar.

P: Verdade, e sem contar que essa mulher também, a mulher do Mário é a que manda nele, manda e desmanda nele. Ela é quem toma decisões, né.

J: é. Aliás, os homens desse livro da Julia, eu os acho fracos assim, em geral…

P: Meio perdidos, ne.

J: Meio perdidos assim, e ninguém os julga como fracos. São totalmente nadas morais: o Gervasio, esse cara folgado, meio chato; o Francisco que se mata, ao invés de assumir a situação como a Camila assume, ele vai e se mata; o Mário, que fica aí querendo dar ordens da mãe, mas no fundo sofrendo as imposições da esposa. Só o Rino mesmo que eu não sei se é fraco ou não – é um personagem meio estranho assim, não sei como encaixar…

P: Ele é um pouco, acho que a gente pode considerar ele um pouco fraco, no sentido de que ele também não lutava pelo amor da Camila, ele ficava naquele o platônico ali, sofrendo ele também não se manifestava, e vai embora…

J: E também, no final, a gente não sabe se ele vai ter coragem de se aproximar, né… nesse sentido pode ser. Acho que é porque ele apareceu pouco… e eu queria gostar de um personagem masculino, então eu separei o Rino assim, quem sabe ele se salva…

P: é, eu acho que é único que se salva…Eu ia falar daquelas duas tias que moram nesse castelo, um lugar sujo, e são mais pobres, mas também são muito… tem várias questões para a gente observar ali da conduta delas…

J: é, a Itelvina, aquela mulher… essa eu acho que é um personagem desprezível, não consegui ver nada positivo nela… avarenta, pega o dinheiro das doações religiosas…

P: e isso mostra a questão da aparência, da inveja, que fica querendo saber o que se passava, para falar da vida dos outros. E só criticando.

J: Vendo o lado negativo das pessoas. Também violenta com a moça que trabalhava na casa dela. Essa personagem é bem chocante. Mas é engraçado que parece real também: não é uma personagem que e um “tipo ideal, a gente nunca vai ver uma pessoa assim…”, mas ela tem umas coisas que parece uma personagem real…

P: Sim, eu acho que é bem real!

J: E a Joana, a irmã dela nela, devota, doando dinheiro para a religião, mas ao mesmo tempo permitindo que a Itelvina batesse na moca que trabalhava pra elas, tratasse de uma forma totalmente desumana… Então eu achei essa parte da Joana também bem crítica.

P: Sim e tem também uns pontos para a gente pensar, umas questões – eu marquei várias coisas da fala do próprio Francisco Teodoro sobre a mulher. Naquele momento que ele vai no navio do Rino e o cozinheiro faz uma ótima refeição, e ele questiona que aquele lugar deveria ser um lugar das mulheres, que são as mulheres que cozinham – ele está sempre marcando os espaços: “esse é o lugar da mulher”. E às vezes o Gervásio, quando está falando da arte, ele já aponta para a questão da “arte é um espaço da mulher”. Não sei se você reparou isso em alguns momentos…

J: Esse do gervásio eu não, não reparei. Mas aí ele fala isso como se a arte fosse uma coisa inferior?

P: não, ele ele fala assim: “digam o que quiserem, para a mim, a intuição da arte está na mulher.” Então ele mostra que esse olhar para a arte é feminino. Eu marquei essa frase que me chamou a atenção, justamente por pensar esses espaços. Enquanto o outro está dizendo da casa, da cozinha, da limpeza do cuidado, ele também está chamando a questão da arte para a mulher.

J: é, eu não sei o que pensar – eu não gosto de Gervásio, então já vou pensar que esse negocio de separar espaço já me incomoda, de tentar deixar claro o que é da mulher e o que não é…

P: não, acho que ele, eu senti na hora com um ponto de elogio. Não foi como o algo ruim, não…

J: entendi, é, mas por outro lado – aí eu já começo a viajar, começo a pensar – aquela coisa de que a poesia, na língua portuguesa, a mulher só pode escrever poesia, mas escrever prosa, romance, já teria uma certa um certo problema. Que é uma coisa que a Júlia Lopes de Almeida vem enfrentar, né: escreveu de tudo, principalmente romance e prosa. E os temas que uma mulher deve tratar nos seus romances: ah, deve tratar apenas da família, do casamento, amor, temas domésticos… mas quando começa a falar de política, economia, ai já não é “tema da mulher”. O que, nesse romance, a Julia também vem quebrar: ela está falando primordialmente de falência – falência moral e falência também econômica, falência financeira, sobre os negócios aí do Francisco Teodoro. O que talvez não fosse um tema que fosse esperado que uma mulher tratasse no romance, o encilhamento, as especulações financeiras.

P: Ela foi muito, muito, muito pra frente! Eu achei ela ótima no sentido de abordar temas que a gente normalmente não veria uma mulher tratando. Ela enfrenta, ela rompe essa barreira.

J: Exatamente, e, em nenhum momento, o romance parece assim muito transgressor, muito radical. Isso que eu acho interessante. Nem parece radical, parece bem ameno, mas, quando a gente vai ver nos detalhes, “não, pera ai”: ela está falando de um tema que mulher não podia tratar nos romances; ela está escrevendo prosa, não está escrevendo poesia confessional; ela está criando vários personagens para ilustrar diversas situações de opressão feminina; está falando de adultério feminino sem aquela culpa, sem aquele peso todo que os romances que tratam desse tema naquela época tinham. Então, ela está fazendo muitas coisas aí sutilmente, sem chocar o leitor – mas, quando leitor vai dormir, começa a pensar: “não, pera ai… tem aquele ponto, tem aquele outro…”

P: é, eu achei que ela foi brilhante neste livro. E, com muita delicadeza, muita sutileza, ela conseguiu abordar de forma muito inteligente várias questões importantes. A própria condição do negro, se a gente pensar – mesmo que tem essa questão da linguagem que incomoda, que a gente tem que salientar mesmo – mas ela está ali mostrando, até na própria descrição do início, da cena, do lugar onde Francisco trabalha, aqueles homens que são negros, que estão ali, em um trabalho braçal mesmo, em condições… Eu não sei se você percebeu que eles rasgavam o saco do café, na hora que um homem negro começava a carregar: tipo, ele tinha que andar rápido, era para pressionar o passo.

J: Nossa, olha eu não percebi esse detalhe!

P: E as mulheres negras estavam ali catando aquele resto de café, para dali conseguir algum sustento. Então, ainda é uma condição muito, muito a margem; é uma condição ainda muito similar à escravidão, se a gente pensar, apesar de ser trabalho, né.

J: é, essa parte da injustiça de raça, de classe social, eu acho que ela mostra de forma muito forte, né.

P: e na própria personagem da Sancha, as outras mulheres, as mulheres que são mais pobres, tem sempre a questão do casamento como uma chave também.

J: A Nina, você vê, que é a sobrinha empobrecida, a agregada da família: assim, a situação dela, não tem dinheiro, vive ali mais ou menos como uma pessoa que trabalha para a família, mas ao mesmo tempo não é uma empregada, não tem nenhuma segurança do futuro. Acho que essa personagem ilustra muito bem esse problema das mulheres empobrecidas.

P: Verdade, e ali ela mostra justamente o contraponto: quando ela ganha casa – porque foi a Ruth que pediu que dessem um presente para a menina e o Francisco da essa casa para ela – e é justamente essa casa que vem a salvar a família da falência depois.

J: é, e por decisão da própria Nina, porque ela podia dar o tchau pra todo mundo ali e começar a vida dela – mas não, ela assume também uma responsabilidade.

P: São personagens que crescem muito assim nos valores mesmo. O lado humano da personagem se destaca muito. E acho interessante a crítica que ela faz a religião: se a gente pensar, é também uma crítica muito forte, porque as personagens que são mais religiosas, que ficam ali pregando que você tem que ir à missa, questionando até a própria Nina – porque aquelas duas tias falam para a Nina que ela está em pecado, que ela não está indo para a missa, que ela diz que não tem tempo, que está trabalhando muito na casa. E são as personagens que são mais maldosas, mais cruéis, que roubam, que mentem, que falam dos outros, mas estão ali na igreja se portando como como religiosas, beatas.

J: Para parecerem boas para as outras pessoas: aquela coisa de jogo de aparência que você mencionou no início. A Joana, aquela tia da Camila, principalmente, fazendo ali a via sacra de todas as igrejas, pra ser vista em todas as igrejas dando doação, mas, dentro da própria casa, a maior violência acontecendo e ela fazendo vista grossa para aquela violência como se nada estivesse acontecendo. Pra mim isso, é muito forte a crítica da Julia a essa personagem – mas assim, ao mesmo tempo, um leitor que não quer ver, não vê essas críticas. Isso eu acho interessante também: ele identifica o personagem da Joana, mas não dá esse salto, assim, dessa certa hipocrisia cristã das personagens.

P: Sim, é verdade. E uma coisa, para a gente falar um pouquinho – eu sei que você já falou no outro podcast da Julia Lopes de Almeida, mas isso de ela não poder assumir a cadeira na Academia Brasileira de Letras não é muito revoltante?

J: Isso é horrível! Gente, péssimo!

P: E o marido dela que ficou no lugar, nossa senhora… muito revoltante!

J: Não tenho nem palavras para isso! E teve um comentário, que o marido teve que assumir a cadeira porque “é o preço que ele paga por ser casado com uma esposa inteligente”… este comentário eu achei terrível demais!

P: Que é mais que a gente pode falar aqui… A questão da velhice que eu falei, do casal…

J: Tem esse ponto que eu acho que… A Letícia Bonfim, ela fez um vídeo também, falando do livro, e aí ela falou que, para ela, o livro começou depois da falência – e aí, logo terminou… Mas eu tive essa sensação no seguinte sentido: a vida das personagens vai começar ali também, né, depois da falência; que é quando elas perdem os privilégios da vida burguesa que elas tinham, mas, ao perder esse privilégio, elas também perdem uma prisão – e então, de certa forma, ganham uma forma de liberdade. Não sei se é uma forma de liberdade que elas queriam, mas é uma forma de liberdade. Achei interessante esse ponto assim. Também o fato de a Camila não se casar com Gervásio ser também, de certa forma, uma possibilidade de liberdade para ela, né.

P: Eu acho que isso do não casar, que aparece tanto na Camila como na Catarina: temos aí mulheres que não estão casando, e tendo uma postura mais de liberdade.

J: é, nenhuma mulher se casa nesse romance. Isso é interessante demais, porque geralmente em romance de século XIX, as mulheres casam. Nenhuma mulher casa aqui: Camila não casa, A Ruth a gente não sabe, mas talvez não case, a Nina não casa, e todas formam uma parceria para sobreviver, para tocarem a vida, né. Não sei que mensagem ela está passando sobre casamento: tipo assim, talvez que casamento não pode ser visto como o porto seguro da mulher, o porto seguro é outro, é  colaboração, é educação, é trabalho.

P: Eu acho que ela passa mesmo essa mensagem, sabe. Teve uma coisa que me incomodou um pouco no livro, quando ele fala da questão da raça. Ela fala, em vários momentos, às vezes é falando do Mario… deixa eu pegar aqui o texto que eu marquei: “é culpa do sangue, da sua raça, que menos estima os superiores, quanto mais estes a afagam. Por isso ela morria de amores por Mário, rapazinho atrevido de gênio autoritário e palavras duras…” Isso é a Nina falando do Mário. Então, assim, aparece essa questão da raça muitas vezes como uma justificativa. Tanto do Francisco, falando dos ingleses – “ah, eles são uma raça superior”. Mas aí o outro diz que eles tiveram mais educação, mais instrução. E chega um momento em que ela faz a distinção entre o que é a instrução e o que é educação. E, em alguns pontos, aparece essa coisa da raça, então isso me incomodou um tiquinho.

J: Acho isso muito problemático também. Isso também aparece quando a Ruth vai pensar sobre a Sancha, quando a Nina pensa sobre si mesma, e é isso aí realmente é um ponto que me incomodou também nesse livro. Eu não sei se também é consciente da escritora, ela está representando uma complexidade: que a sociedade pensava daquela forma, até hoje tem gente que fala isso né: “ah, os ingleses são melhores bla bla bla…”

P: Tem uma parte em que ela fala assim, deixa eu achar o trecho que eu achei… Mas aí também ela questiona: Por que? “Que direito teriam uns as primícias e regalos da vida, se havia outros que nem por uma nesga viam a felicidade… Sabia da história da Sancha, era negrinha vinda aos sete anos da roça para casa das tias, com sentido no pão e no ensino. Era dos últimos rebentões dessa raça que vai desaparecendo como um bando de animais perseguidos…” Então, ela traz a questão racial também, apesar de ela estar problematizando. Mas eu achei um pouco… me incomodou um pouco.

J: Eu acho complexo. Ao mesmo tempo em que ela está escrevendo uma injustiça, assumindo um ponto humanista, por outro lado quando ela vai usar um certo vocabulário e vai pensar a questão dessa forma, eu acho realmente… aí, lembrando que a Aline Aimee me falou, né, é complicado.

P: Ela não foi tão feliz aí nessas palavras, né. Voce já leu outros livros dela?

J: Não, eu li alguns trechos e crônicas dela, Ansia eterna, que tem os contos, mas eu nunca li inteiros livros dela. Esse foi meu primeiro contato com a autora, e agora eu quero continuar lendo!

P: Eu também! Achei mais uns dois em ebook né, e aí eu vou ler depois, porque eu gostei muito do texto: achei um texto assim muito, muito bonito e muito gostoso de ler. Se a gente pensar assim que é um texto mais antigo, mas ele não é tão, tão digamos, assim, não causa um estranhamento. Tipo Úrsula da Maria Firmina dos Reis já causa um pouco esse estranhamento, pelas palavras, pelo vocabulário. Mas eu achei muito fluido e muito gostoso de ler.

J: é eu também. Eu acho que ela escreve também frases mais curtas, tenta fazer um certo ritmo ali. E também pelo enredo prende – pelo menos, a mim prendeu o tempo todo eu queria, “pera ai, vou ler mais um capítulo”, para saber o que aconteceu.

P: Eu também fiquei assim!

J: E ela vai passando ali por cada personagem, achei interessante também. A gente fica pouco tempo com cada personagem, mas pelo menos um capítulo ela vai passando assim pela perspectiva dos personagens, para passar uma impressão deles. Isso eu achei bonito também e achei bem moderno também, e o final aberto também.

P: Nossa, é muito legal o final aberto! Apesar de que eu queria saber o que ela faria agora…

J: Bom, eu estou vendo aqui as pessoas que leram o romance. O Wolney Fernandes comentou que o livro faz um panorama da situação da mulher no final do século XIX. De fato, eu senti isso também: todas as personagens femininas ilustram um aspecto da condição feminina…

P: Eu achei só assim, que a questão da maternidade, por exemplo, ela não, não é tão explorado. Apesar de ela ter vários filhos…

J: ela é uma personagem que não tem o sentimento esperado de afeto com os filhos. Não sei, talvez foi uma decisão consciente também da escritora: “ah, chega de ter que escrever sobre maternidade, vou escrever aqui essa personagem que não é muito ligada aos filhos”, sabe…

P: ela não explorou muito esse desejo aí não de ter filhos, não sei. Ela tem um carinho pelas meninas, e o carinho especial todo pelo Mário, mas não é uma questão que ela abordou em outras personagens femininas.

J: é, nem um pouco. Também acho que isso deve ter sido meio consciente, para fugir disso: “não vou tratar desse tema, já foi tratado…” Engraçado que os personagens que expressam o desejo, ou talvez um sentimento filial são os homens, falando que são as mulheres que têm que cuidar dos filhos e blá blá blá… Isso eu vejo nos personagens masculinos da julia, mas os femininos nunca abordam isso. Bom, acho que esses foram os pontos que eu peguei aqui…

P: Acho que a gente fala de todos aqui…

J: Uai, então a gente vai finalizar, como que é?…

P: Finalizamos, então, Ju!

J: Muito obrigada, Paula, por ter lido comigo esse romance!

P: Eu que agradeço, foi um prazer conversar contigo.

J: Espero que você queira participar mais aí, ler mais livros…

P: Vamos, vamos, sim. Foi a primeira vez, a gente ainda esta aqui aprendendo a fazer podcast… O próximo sai melhor…

J: é, um pouco menos não profissional, digamos assim… Aí fica em aberto, a gente conversa sobre os próximos livros. Não sei se você tem algum livro para indicar para o pessoal, se quiser falar alguma coisa para o pessoal para despedir também, não sei…

P: Ah, eu acho que quem leu esse, deveria ler também o da Maria Firmina, o Úrsula, que é um livro importante. Também é bem novelão assim – apesar de eu ter gostado muito mais da escrita da Julia Lopes de Almeida – mas também é  um livro interessante, para a gente pensar principalmente a questão dao discurso abolicionista de uma escritora negra – a primeira escritora negra brasileira. Então, eu recomendaria a leitura do Úrsula também.

J: Fica aí essa dica. A gente de repente pode até ler no podcast juntas, também.

P: Pode ser, eu topo.

J: Então já estamos planejando as cenas dos próximos capítulos aqui…

P: ou então outro livro que você escolher, também topo. Estou super aberta a bater papo

J: Joia, então a gente vai conversando! Bom, eu fiquei muito feliz com a sua participação, adorei conversar com você, eu acho que a gente poderia continuar conversando aí sobre esse livro, os pontos vão surgindo durante a conversa. Acho que deu para o pessoal perceber que não tinha um esquema muito fixo aqui, que era uma coisa mais livre e é isso. Espero que você tenha gostado, Paula, espero que os ouvintes tenham gostado, e fica o meu convite aí, reiterado várias vezes, para que você participe mais da discussão aqui do podcast. Se você quiser, claro!

P: Vou adorar, Ju! Um beijo.

J: Um beijo. Ate mais!


Poema falado

Agora, ao final do episodio, e hora do nosso Poema falado, um segmento dedicado à leitura de poesia.

Excepcionalmente, leio uma crônica de Cecilia Meireles, publicada em 1962, por ocasião do centenário de Julia Lopes de Almeida, e reunida na obra Escolha o seu sonho (1976):

Dona Júlia

O belo rosto de D. Júlia aparece-me, agora que se festeja o seu centenario, com a nitidez com que me apareceu, certa amanhã de verão, na Rua do Ouvidor. Fazia maior calor, mas, na sua blusa branca, e com seu para sorriso, D. Júlia, com as temporas úmidas, tinha uma frescura de flor orvalhada. Seus olhos possuíam uma inteligencia tranquila e penetrante: pareciam mais científicos do que artísticos. A Arte, porém, estava em sua figura harmoniosa, em seu gesto e em sua palavra, na sua elegância natural, de uma dignidade que os dias de hoje não fazem senão, por amargo contraste, ressaltar.

Aqueles olhos penetrantes de D. Júlia, que ora pareciam velados, ora cintilantes, já tinham pousado sobre muitas cenas da vida humana, sabiam muitas coisas de sua incoerência, da sua amargura, das suas aptidões. E ela, então, escrevia sobre essas coisas, com leveza e sabedoria, procurando – suponho – instruir sem aconselhar, consolar sem ferir, harmonizar sempre entristecer. Sente-se isso em muitas de suas páginas: sente-se que não escreve apenas pelo prazer que isso lhe cause, nem pela fatalidade de pertencer a uma família de escritores, nem pela novidade de ser a nossa primeira romancista e, portanto, predestinada a glória que no seu centenário se celebra. Um pouco de tudo isso influiria no seu impulso criador; mas, anteriormente a tudo isso, há uma espécie de piedade, um desejo de fazer bem, uma necessidade de contribuir para um mundo melhor que – ai de nos! – pertence muito mais a natureza dos educadores que a dos simples escritores.

Lembro-me de certo livro de leituras infantis em que colaborou. Nós, crianças, gostávamos de suas histórias e, sem a conhecermos, gostávamos também daquela que as escrevera. Por que celestial intuição já previamos que D. Júlia seria assim uma pessoa diferente, com uma finura e uma cordialidade que as sua simples páginas transmitiam? Na verdade, ninguém nos falara da autora, ninguém nos dissera nada a seu respeito; e, embora o livro fosse feito em colaboração, era no seu nome que nos fixávamos. E pensávamos com muito carinho em D. Julia.

E agradável sentir-se que as impressões da infância, em sua pureza e naturalidade, não se desfaçam ou defigurem com o passar dos anos. Que os olhos críticos e já sem ilusões da idade madura não se decepcionam diante do seu antigo encantamento. E D. Júlia não desencantou nunca. Soube conservar, com sua fama de escritora, sua elegância natural de mulher culta e boa, dedicada e útil, conciliando em si, como na sua obra, a beleza e o bem. E é isso o que, agora, pelo seu centenário, se recorda, se celebra e se deve agradecer.” Cecilia Meireles, Dona Júlia


É isso, pessoal.

Eu agradeço novamente a Paula, por ter participado do episodio, e reitero o convite para que ela participe mais do podcast.

Se vocês tiverem algum comentário, sugestão, critica, ou pergunta, ou mesmo se quiserem participar do podcast, basta entrar em contato comigo por minhas redes sociais, que estarão linkadas nas show notes desse episódio. Eu sou @blankgarden no Instagram, e @ablankgarden  no Twitter. Caso vocês oucam o podcast no aplicativo Anchor, vocês também podem me mandar mensagens de voz por lá. Também disponibilizo as transcrições de cada episódio na página do podcast, para quem não tem condições de ouvir. Todos os links vocês encontram no box de descrição desse episódio.

E agora eu tenho uma pergunta para você que me ouviu até aqui: O que você achou da obra A falência? Qual a sua opinião sobre os tópicos debatidos no episodio de hoje? Há algum outro livro ou autora que você gostaria que eu abordasse aqui? E so deixar sua opinião ou comentário nas redes sociais do podcast.

Muito obrigada por terem escutado até aqui. Espero que tenham gostado, e até o próximo episódio!


Esse episódio foi escrito, produzido e apresentado por Paula Dutra e Juliana Brina, em maio de 2019. A musica tema foi baseada no Chorinho “Atraente”, composto por Chiquinha Gonzaga em 1877, e executado por  Pixinguinha no saxofone e Benedito Lacerda na flauta, em gravação de 1940, disponibilizada para uso gratuito, na Wikimedia Commons.


Caso tenha alguma sugestao ou queira participar de algum episódio do podcast (é tudo caseiro, nao se acanhe), é só entrar em contato comigo. Basta comentar aqui ou me enviar uma mensagem por meio de minhas redes sociais: Instagram / Twitter / Blog / Outros

Caso tenha interesse em comprar quaisquer dos livros citados nesse episódio, considere usar meu link de afiliado. Para cada livro que você compra usando este link, eu ganho uma pequena comissão – você não paga nada a mais por isso, e o frete é grátis em todo o mundo. Você também pode doar qualquer quantia de dinheiro para o podcast. Obrigada ❤

Até o próximo episódio,

J.

2 comentários sobre “S01EP06 – “A falência”, de Júlia Lopes de Almeida (1901)

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