S01EP07 – Margaret Oliphant e seus romances Miss Marjoribanks (1866) e Hester (1883)

Artigo, Resenha

Nesse episodio, falo sobre a escritora escocesa Margaret Oliphant e seus romances Miss Marjoribanks (1866) e Hester (1883). 

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Livros discutidos no episódio:


Livros sobre Margaret Oliphant


Transcrição do episódio

“Olá,
Meu nome é Juliana e esse é o podcast Clássicxs sem Classe, no qual eu discuto clássicos escritos por mulheres pouco lidas, não traduzidas, excluídas do cânone ou esquecidas, bem como clássicos da literatura queer. Tudo sem a menor classe, claro.

No episódio anterior, a Paula e eu discutimos o romance “A falência”, da brasileira Julia Lopes de Almeida. O próximo livro que nos duas vamos discutir sera a obra O despertar, da americana Kate Chopin (The Awakening, de 1899), e vocês estão todos convidados a lerem esse livro conosco em agosto. A obra esta no domínio publico, e possível baixa-la no original em inglês no Projeto Gutenberg, e há uma edição portuguesa de 2007. No Brasil, acho que há uma edição da Paz e Terra, de 2002, e uma da Estacao Liberdade, de 1994. Espero que vocês se animem a ler essa obra conosco!

No episodio de hoje, eu dou um pequeno salto no tempo e atravesso o Atlantico, para falar da escritora escocesa Margaret Oliphant.

Mas, antes disso, eu gostaria de agradecer a todos que tomaram seu tempo para ouvir e comentar o episodio anterior. A Aline Aimee e o James Thiago compartilharam o episodio no Instagram; a Jessica Balbino incluiu o podcast na lista de 70 podcasts literários para se ouvir, em matéria da revista Pelas Margens; e a Mell Ferraz do canal literature-se mencionou o podcast em sua vídeo-resenha do livro A falência. Obrigada, gente! Voces encontram todos os links no box de descrição desse episodio.


Se por acaso você também compartilhou o podcast e eu não vi, obrigada! E so me marcar na publicação, para que eu possa ver e agradecer aqui da próxima vez.

Mas vamos agora ao que interessa:

Quem foi essa tal de Margaret Oliphant?


“Estou correndo muito pouco risco de escreverem sobre minha vida. Ninguém próximo a mim tem energia suficiente para fazê-lo, ou mesmo para recolher os fragmentos para que outra pessoa o faca – e, sob esse ponto de vista, é melhor que seja assim – o que poderia ser dito de mim? George Eliot e George Sand me deixam meio inclinada a chorar por minha pobre e pouco apreciada pessoa … Eu não compraria a fama delas com suas desvantagens, mas me sinto muito pequena, muito obscura ao lado delas, um fracasso em todos os aspectos; nunca consegui afeto, e durante toda a minha vida, embora eu tenha tido todas as experiências habituais de uma mulher, nunca impressionei ninguém, – que pequena queixa! – e por que eu deveria impressionar? Reconheço com franqueza que não há nada em mim – uma mulher gorda, pequena e comum, com a língua presa – nada que impressione numa pessoa sequer”. – Margaret Oliphant, em sua autobiografia, tradução minha



Margaret Oliphant (também conhecida como Mrs. Oliphant) foi uma escritora escocesa.

Ela nasceu no dia 4 de abril de 1828, na Escocia, em uma localidade, perto de Edimburgo. Era a filha mais nova de Francis W. Wilson, um funcionário publico, e Margaret Oliphant Wilson, uma dona de casa. Apos seu nascimento, a família mudou-se diversas vezes, chegaram a viver um tempo em Glasgow, e finalmente se estabeleceram em Liverpool, em 1838.

Pouco se sabe de seus primeiros anos. Sabe-se que foi educada em casa, e que, em 1845, aos dezessete anos, Margaret ficou noiva de um homem cujo nome hoje desconhecemos, conhecido apenas pelas inicias J.Y, e ela ficou noiva na véspera do dia em que esse homem emigrou para a América, e depois disso eles logo romperam o noivado. Por volta dessa mesma época, enquanto cuidava da mãe que estava doente, Margaret escreveu um romance, Christian Melville, que seria publicado apenas mais tarde, em 1855, sob o nome de seu irmão, Willie.

Margaret publicou seu primeiro romance, Passages in the Life of Mrs Margaret Maitland (Episodios da vida / passagens na vida da Sra. Margaret Maitland), em 1849, quando ela tinha 21 anos de idade. Nesse mesmo ano, ela viveu em Londres por três meses, trabalhando como governanta de seu irmão Willie, que, já naquela época, apresentava os primeiros sinais do alcoolismo que mais tarde o tornaria dependente da irmã até a morte dele, em 1885.

Em 1851, depois de ter publicado vários romances com considerável sucesso, Margaret foi convidada pelo editor William Blackwood para contribuir com a entao famosa Blackwood’s Magazine. Ela dizia que ela era a “mulher de utilidade geral” da revista, o pau para toda obra, por sua capacidade de escrever sobre praticamente qualquer assunto, passando por diferentes gêneros: ficção, crítica literária, biografia e história, entre outros.

Durante sua breve estadia em Londres, Margaret também conheceu seu primo Frank Oliphant, um designer e pintor de vitrais, com quem ela viria a se casar, cerca de três anos depois, em 1852. Eles se estabeleceram em Londres e tiveram seis filhos, três dos quais morreram ainda bebes. Inclusive, no início de sua carreira, Margaret constantemente se culpava pela morte dessas crianças, e temia que isso tinha sido o efeito da quantidade de trabalho mental que ela realizava paralelamente as suas tarefas domésticas. Essa e uma forma de pensar recorrente entre escritoras desse tempo, como também Elizabeth Gaskell, por exemplo.

Mais tarde, o marido de Margaret começou a desenvolver sintomas de tuberculose e a família mudou-se para a Itália em 1859. Nesse período, ela tentou se aproximar de várias editoras, procurando um cargo que lhe proporcionasse uma renda regular, mas nunca chegou a alcançar a segurança financeira que buscava. Seu marido morreu no mesmo ano, de 1859, em outubro, em Roma. Sua morte a deixou longe de casa, grávida e endividada. Quase inteiramente sem recursos, Oliphant mudou-se brevemente para a casa do irmão Frank, na Inglaterra, e de lá começou a sustentar sua família por meio de sua atividade literária. Além de seus filhos, Oliphant ainda sustentava o irmão alcoólatra Willie e também o irmão Frank e os três filhos dele, depois que ele sofreu uma ruína financeira em 1868. Ela era mesmo o arrima da família.

Nesse período, ela gozava de bastante sucesso como novelista, e foi a mentora literária da romancista irlandesa Emily Lawless. No início, Oliphant apresentava um profundo desdem pela campanha pelos direitos das mulheres, mas gradualmente mudou de opinião mais tarde, e isso se verifica pela leitura de seus artigos. Em 1869, em uma resenha da obra The Subjection of Women, de John Stuart Mill e da obra Women’s Work and Women’s Culture, que era uma série de ensaios editados por Josephine G. Butler, Oliphant adota entao nessa resenha, pela primeira vez, uma visão favorável ao movimento sufragista para mulheres que atuavam como chefes de família – o que era o caso dela.

Posteriormente, em um artigo para a Fraser’s Magazine, em 1880, intitulado The Grievances of Women, ela adota uma visão crítica contra o preconceito masculino em relação às mulheres, e critica especialmente a recusa masculina na época de tratar mulheres em igualdade de condições. Finalmente, em 1889, em uma resenha do romance feminista de Sarah Grand, Ideala (1888), Oliphant professou simpatizar com todas as reivindicações do movimento pelos direitos das mulheres da época (Há uma discussão se se pode chamar esse movimento de feminista, ou protofeminista, mas enfim movimento pelos direitos das mulheres, especialmente pelos direitos a educação e ao voto).

Oliphant passou por uma serie de tragédias pessoais. O falecimento de três filhos ainda bebes, o falecimento do marido, a falência de um irmão e o alcoolismo do outro. Porem, o que mais a afetou foi o falecimento de sua filha Maggie, em 1864, de seu filho Cyril em 1890, e de seu filho Francis (Cecco) em 1894 – que tinha sido seus três únicos filhos a sobreviver até a idade adulta. Então ela perdeu todos filhos. Por essa ocasião, ela escreveu: “Não deixarei nada para trás que vai viver, nada de vivo para trás”. E vocês tem que imaginar que, quando ela escreveu isso, ela também pensava que não seria lembrada como escritora, que os livros dela morreriam no esquecimento.

Em 1896, ela começou a sofrer de dores internas cada vez mais graves, que mais tarde foram atribuídas à doença que se estima tenha causado sua morte, qual seja, câncer do cólon. Margaret Oliphant morreu no meio das comemorações do Jubileu da Rainha Vitoria, em 25 de junho de 1897.



“Em Dover, quando ela entrou no barco a vapor que a levaria a um cenário tão novo, Lucilla sentiu cada vez com mais forca que ela detinha nas maos as rédeas da reorganização da sociedade em Carlingford, ela era uma mulher com uma missão.” – Miss Marjoribanks, Oliphant, trad. minha



O romance Miss Marjoribanks, publicado pela primeira vez em folhetim na Revista Blackwood, de fevereiro de 1865 a maio de 1866, é o quinto livro da série The Chronicles of Carlingford (“As Crônicas de Carlingford”), uma série espirituosa e bem popular, de historias que se passavam na mesma cidade, a cidade do titulo, Carlingford – serie essa que foi inspirada na série Barsetshire (Ba’r-se’t-shir) de Anthony Trollope.

Pois bem, em Miss Marjorbanks (1866), temos uma protagonista que, de um lado, parece se dedicar à difícil tarefa de superar os limites do que os vitorianos consideravam ser os papeis sociais aceitáveis a serem exercidos pelas mulheres; e, de outro lado, e uma protagonista que permanece vinculada a esses limites muito estreitos. Assim como a protagonista, a autora, Oliphant, parece tentar manter ai esse jogo de cintura que vemos com frequência nas escritoras oitocentistas: que e escrever dentro dos preconceitos sociais de seu tempo, e a partir deles, sem confronta-los abertamente; e, ao mesmo tempo, tentar criticar nas entrelinhas esses preconceitos, explorando-os até o limite, e usando de humor para mascarar a ameaça real que sua visao crítica poderia oferecer à visão de mundo de um leitor vitoriano médio. O humor e a arma de defesa da Oliphant.

Nós somos apresentados a essa protagonista, Lucilla, a Miss Marjoribanks do titulo, quando ela tinha 15 anos de idade. Ela e filha Única de um casal de classe media alta cujo pai trabalha como medico da cidade. No momento em que o livro começa, ela viaja de volta para casa – ela vivia em um colégio interno – e volta para casa por ocasião do falecimento de sua mãe. Nessa ocasião, Lucilla esta la, viajando na maionese, muito imatura, imaginando coisas grandiosas para si mesma, um papel heróico como uma filha zelosa que renuncia a tudo e permanece em casa para ser um consolo para o pai viúvo. No entanto, para seu desgosto, a ultima coisa que o pai dela quer depois da morte da esposa e ter que se ocupar dessa menina, e insiste que Lucilla complete sua educação e volte para o colégio. Ele prontamente a manda de volta à escola, e depois de três anos de estudo e de uma grande viagem pelo continente europeu, Miss Marjoribanks retorna à cidade natal, a cidade provinciana de Carlingford: e ela está mais determinada do que nunca a perseguir a missão que havia estabelecido para si mesma anos antes.

A história é permeada por um forte senso de ironia: ao aceitar e abarcar completamente o papel que a sociedade vitoriana atribuia a ela – a de uma filha zelosa -, Lucilla consegue transcender esse mesmo papel e se tornar uma força real na vida social e política da cidade; ao insistir que ela está apenas confinada ao reino doméstico, algo que ela repete a todo momento ,ela insiste que so quer saber de cuidar da casa do pai, ao fazer isso Lucilla expande sua esfera de influência para o domínio público; basicamente, ao obedecer as regras da forma mais literal possivel, ela consegue distorcer essas mesmas regras em benefício próprio.

As descrições das relações de Lucila com seus familiares e em sua casa espelham as de um soberano altamente qualificado que consegue vencer inumeras batalhas, e tomar o poder em determinado território; ou mesmo espelham as acoes de um diplomata brilhante, que expande suas esferas de influência coordenando eventos complexos e evitando conflitos. Aos poucos, observamos como Lucilla não apenas toma conta de sua casa, mas também começa a assumir o controle da vida social de Carlingford.

Desde o início, percebemos que os talentos de Miss Marjoribanks ultrapassam os limites d o que e considerado permitido e aceitavel para uma mulher jovem da classe média. Lucilla é brilhante e esta determinada a criar um espaço para si mesma – um quarto so seu -com o pouco que e permitido que ela tenha como mulher nessas condições. Ela adia o casamento por dez anos, para fazer sua carreira domestico, e desse modo subir ao poder em Carlingford. Ao contrário dos personagens masculinos deste romance, que são meio fúteis, ingênuos e governados por paixões, Lucilla é prática, organizada e racional: ela é uma mulher ambiciosa, uma mulher com uma missão.


Ao longo do romance, Lucilla afirma diversas vezes que ela está determinada a se dedicar ao pai pelos próximos dez anos. Essa e a desculpa que ela da para adiar o casamento. Ela pode estar nos dizendo a verdade, ou ela pode estar usando seu pai como uma desculpa para uma meta mais ambiciosa de assumir o controle de Carlingford. Nós realmente não sabemos qual é a verdadeira missão dela, e isso não importa. Ao aceitar seu papel estreito de filha zelosa, Lucilla assume o papel muito maior de protagonista na cidade: ela ganha popularidade, influência e poder muito além dos limites de sua sala de estar, sem nunca ter que deixar seu habitat doméstico. E como se ela, de sua sala de estar, estivesse a tricotar uma teia invisível de poder que se expande para o lado de fora da casa.

Ela define sua missão de “ser um conforto para seu pai”; ela planeja melhorar a vida social de sua cidade provinciana; e transforma seus sarais de quinta, suas “noites de quinta-feira” em “uma verdadeira instituição em Carlingford” – vira como se fosse uma missa de domingo, a qual ninguém pode faltar; finalmente, ela se estabelece como o coração pulsante da cidade – e todo o tempo revestindo sua missão pessoal como se fosse sacrifício, um empreendimento altruísta de cumprir com seu “dever público” para com a sociedade. Gradualmente, ela virá administrar todos os principais eventos da cidade: desde dramas e romances locais até a política local.

Eu achei particularmente muito divertidas as diferentes maneiras pelas quais os personagens homens tem dificuldade de entender ou interpretam errado as intenções de Lucilla: eles estão a todo momento reduzindo essas intenções ao modo estreito como imaginam que uma mulher pensa e sente. Eles tem uma visão muito estreita do que uma mulher e capaz, e e a partir dessa visão que eles estão a todo momento interpetando Lucilla errado.

Eles parecem incapazes de aceitar que Lucilla possa ser outra coisa senão um ideal romântico passivo, meio bobo e inocente; eles não percebem que ela não esta nem ai para eles e que ela tem seus próprios objetivos a seguir. Nesse ponto eu lembrei da cena de Orgulho e Preconceito, da Jane Austen (1813), no qual o Mr. Collins pede a Elizabeth em casamento, e ela nega prontamente da forma mais clara possível, mas ele se recusa a entender que ela esta dizendo não. Essa e uma das melhores cenas comicas já escritas na literatura.

Aqui, o Mr. Collins esta diluído em todos os homens do livro da Oliphant. De fato, os homens do romance da Oliphant freqüentemente falam bobagens e são vítimas de sua própria tolice. Eles e que são os fracos, românticos, estúpidos, ingênuos. As mulheres, por outro lado – e particularmente Lucilla – são as forças motrizes de tudo o que realmente importa na história. Oliphant inverte os estereótipos ai. “Lucilla não pôde deixar de lançar um olhar desesperado ao seu redor, como se estivesse apelando para o céu e para a terra. O que deveria ser feito com um homem que tinha tão pouca compreensão dela, e de si mesmo, e da adequacão eterna das coisas?”

O romance faz uma crítica afiada as restrições impostas às mulheres talentosas pelos costumes da sociedade do século XIX. Lucilla e seu próprio pai sabem muito bem que, se ela fosse homem, teria muito mais oportunidades de colocar seus talentos em prática. Ela teria sido médica ou teria ido para o Parlamento. Assim, ela é forçada a mudar e distorcer suas habilidades, de modo a ajustá-las ao estreito padrão da feminilidade vitoriana. E ela faz isso até o ponto da deformidade, de modo que o efeito é estranho e cômico: enquanto os eventos domésticos mais triviais assumem o caráter de eventos centrais, os verdadeiros eventos políticos são apresentados como uma trivialidade. Sabemos que a sala de estar de Lucilla não deve ser levada a sério, mas, no decorrer do livro, acabamos por pensar que o chamado “mundo masculino” é ainda mais trivial do que o reino doméstico da Lucilla.

Os ambitos privado e público meio que se espelham neste romance. E esse é um espelho de dois lados: dependendo da maneira como um leitor vitoriano olha para ele, esse leitor pode ter suas vaidades de classe média reforçadas e satisfeitas, vendo Lucilla como a imagem perfeita da virtude feminina do século 19, a filha zelosa; ou, com um olhar mais penetrante, ele pode vê-la como um reflexo detalhado e critico de si mesmo, de suas próprias idéias mesquinhas, seus preconceitos e deficiências como leitor.

E o melhor e o senso de humor com que a Oliphant faz isso: é um humor seco, que esse leitor vitoriano imaginário pode nem perceber; e, se chegar a perceber, esse leitor pode ate se sentir muito indignado. Se Lucilla parece ser uma personagem pateticamente cômico – uma mulher sem outra saída para seus talentos do que empregá-los em atividades triviais e ser louvada por isso -, não podemos deixar de sentir que o mundo limitante que a forçou nessa situação é ainda mais patético.

Neste romance, a autora – da mesma forma que a personagem Lucilla – consegue distorcer as normas, mas nunca subvertendo essas normas abertamente. E isso e que eu acho brilhante.



“Era assim que eles chamavam a condição natural das mulheres? sofrer, talvez compartilhar a culpa, mas não ter qualquer participação no plano; simpatizar, mas não saber; seguir em frente cegamente, de acordo com alguma regra de lealdade e obediência, que para qualquer outra criatura no mundo seria loucura e culpa? ”- Margaret Oliphant, Hester (1883), trad minha



Hester (1883) parece ser um título enganador: podemos ter a impressão de que o que temos em nossas mãos é a história do amadurecimento de uma mulher jovem. No entanto, à espreita nas entrelinhas deste livro, temos uma história totalmente diferente: a da ascensão, decepcap e queda de uma senhora mais velha e solteira. Quando essas duas histórias finalmente se chocam, a gente sente que, talvez, desde o inicio havia apenas uma e única história, afinal de contas – a historia da mulher desse tempo, mas vista a partir de extremidades opostas.

É-nos dada uma visão retrospectiva da criação e desenvolvimento do banco Vernon, uma empresa familiar que tem uma reputação de estabilidade há muitas gerações, na pequena cidade de Redborough. Um dos membros da família, Catherine Vernon, uma solteirona de trinta e poucos anos que, apesar de ser uma das principais socias do banco, decidiu se afastar, quando seu primo, John Vernon, começou a atuar como diretor da mpresa. Ela tinha sido apaixonada por ele, mas, contrariando as expectativas da família, John decidiu se casar com outra mulher. A Mrs. John Vernon era uma garota linda e convencional de uma família da aristocracia.

No momento em que a família Vernon nos e apresentada, imprudentes atos de especulação efetuados por John Vernon quase destruiram o banco, e ele foge para evitar ter que lidar com a crise. Como os rumores começam a se espalhar que haverá “uma operação de controle no banco”, um funcionario, Mr. Rule, decide procurar por John Vernon, mas encontra em casa apenas sua esposa, a Mrs. John Vernon. Mr. Rule logo percebe que ela não tem a menor nocao do que esta acontecendo e e completamente ignorante do perigo que a empresaenfrenta. Desesperado, ele então decide procurar por Catherine Vernon, que, contrariando todas as expectativas, entende o que está em jogo e entra em ação, colocando sua fortuna a disposição da empresa, salvando o banco.

Catherine assume o lugar deixado por John, e sua esposa deixa a Inglaterra para encontrá-lo na França, onde eles passam a viver no exílio. Nos trinta anos que se seguem a partir dai, Catherine administra o banco, tornando-o ainda mais próspero do que antes. Ela se torna a pessoa mais importante da cidade e mantém alojamentos para seus parentes em uma propriedade da família, atuando como sua benfeitora. Ela começa a criar dois sobrinhos, Harry e Edward, para treiná-los para sucedê-la nos negócios. Harry é um jovem leal e confiável, mas Catherine acaba desenvolvendo uma preferência por Edward, que se torna uma espécie de filho adotivo para ela.

Muitos anos após o incidente que quase destruiu o banco, John Vernon morre, e Catherine convida a viúva dele e a filha de 14 anos, Hester, para se mudarem para a propriedade da familia. Apesar de suas personalidades semelhantes, Hester e Catherine interpretam-se mal desde o primeiro encontro, e sua relação é marcada por conflitos e desagrado mútuo.

Hester logo se desilude com a vida ali, e percebe que a maioria dos habitantes, apesar de viverem da caridade de Catherine, é ingrata, caluniosa, ressentida e até rancorosa com a anfitriã. Tudo com o que Hester pode sonhar é em se libertar deste ambiente (e de Catherine) assumindo uma posição de professora. Seus parentes, no entanto, proíbem-na de fazê-lo: seria algo abaixo de sua classe, o que não só mancharia suas chances de fazer um bom casamento, mas também diminuiria sua família aos olhos da sociedade. A única opção de Hester é ficar ao lado de sua mãe até o casamento, esperando passivamente que alguém queira se casar com ela. E é precisamente isso que a nossa protagonista não pode tolerar.

Quando um corretor da bolsa de valores entra em cena, cortejando Hester e tentando Edward com promessas de fortuna rapida, a história toma um rumo inesperado, onde nossa heroína será confrontada com uma escolha difícil entre liberdade e dever.

A primeira coisa que se destacou para mim no livro foi sua perspectiva irônica sobre o amor. Diferentemente de uma trama tradicional de casamento, nunca chegamos a uma conclusão realmente romântica quando o livro termina. Na verdade, não apenas a história de nossa heroína permanece aberta, mas ela também parece terminar mais ou menos onde ela começou: no final, Hester não alcançou nenhuma forma de trabalho ou independência econômica, e tudo o que ela tem é uma escolha entre dois potenciais pretendentes – nenhum dos quais particularmente notável. Ela não tem amor, nem carreira, nem dinheiro – e, no entanto, o final a parabeniza por ter aquilo com que a maioria das mulheres da época sonhava: uma escolha entre … dois maridos. “O que mais uma jovem pode desejar alem de ter essa possibilidade de escolha?”

Ao ridicularizar a convenção de fazer com que a protagonista se case no final de uma narrativa feminina, e ao apresentar aa heroína uma escolha limitada a pretendentes, o romance ironicamente destaca a real falta de escolha de Hester: tudo o que ela pode fazer com sua vida é se casar. Fica claro para nós que ela não tem escolha real, e que o casamento não é nem mesmo a mais importante decisao para uma mulher de seu intelecto e potencial. Eu particularmente gostei do fato de que os personagens mais preocupados com o amor romântico, no livro, não eram as mulheres, eram os homens. Além disso, o livro faz um bom trabalho ao retratar a maneira como a idéia do amor romântico foi usada como um dispositivo para controlar as mulheres ou negá-las uma posição em pe de igualdade em um relacionamento.

O romance também lança luz sobre o papel das mulheres na sociedade britânica do século 19, e, ao mesmo tempo, subtilmente tenta subverter esses papéis. Essa e a marca da Oliphant. Ela faz aqui nesse livro um contraste nítido entre dois tipos de mulheres, com base na capacidade delas de se enquadrarem nos papéis que lhes são impostos: temos a mãe de Hester, a Mrs. John Vernon, uma mulher gentil, passiva e feminina que se orgulha de sua ignorância sobre o mundo dos negócios; e temos Catherine Vernon, uma solteirona que se atreveu a assumir um papel de liderança na esfera pública e é muito competente em sua linha de negócios.

Curiosamente, os dois tipos de mulheres são criticados pelos personagens masculinos do romance: Mr. Rule parece sugerir que a passividade e a ignorância da sra. John Vernon e que permitiram a irresponsabilidade do marido. Quanto a Catherine, não apenas John Vernon afirma que ela não teria nenhum senso comercial (“O que ela deveria pensar? O que ela deveria saber? Claro que ela deixa tudo isso para mim. (…) Como uma garota pode entender negócios bancários?”), mas também Edward define o poder dela sobre ele como mae adotiva, como uma afronta à sua masculinidade, e ele se vê como “um escravo de uma mulher velha!”, amarrado ao “avental dela”, sugerindo que tal poder não é “lugar natural” de uma mulher .

Hester, e colocada entre esses dois tipos de mulheres, mas não tem oportunidade real de escolher uma delas. Ela se opõe à opinião de Edward sobre as mulheres nos negócios, e constantemente pede-lhe para explicar assuntos do banco para ela (“Eu sou uma mulher, mas eu não sou uma tola. Eu posso entender a maioria das coisas”). No entanto, ela é repreendida por ninguém menos do que Catherine, que afirma que, apesar de ser uma garota talentosa capaz de se tornar “um excelente homem de negócios”, Hester não pode se tornar um, devido ao fato de que o mundo só toleraria uma mulher já velha em tal posição, mas nunca uma mulher jovem. A única maneira de uma jovem se tornar ativa nos negócios seria se casar com um homem de negócios. Não sem alguma amargura, Catherine insinua que o mundo só a aceitou como chefe do banco, porque ela já estava na casa dos trinta quando assumiu o cargo – uma época em que a sociedade já considerava que o casamento não era mais uma opção para Catherine.

O destaque do romance, para mim, foi o fato de que ele sutilmente muda a perspectiva tradicionalmente adotada em uma trama de casamento: ao contrário de outros romances da época, aqui os dilemas morais com que Hester se depara não estão centrados no casamento nem nos homens, mas em nas relações da protagonista com outras mulheres – particularmente, com sua mãe e Catherine. Além disso, o romance desafia a ideia de que as mulheres não poderiam ter sucesso na esfera pública.

Na personagem de Catherine, o livro inverte a esperada dicotomia entre público e privado em relação aos papéis das mulheres. Ao contrário do que acontecia nos tempos vitorianos, onde o comportamento das mulheres na esfera pública era julgado à luz de suas vidas privadas, aqui e a imagem privada de Catherine que é distorcida por sua imagem pública. Seu poder na esfera pública (como chefe do banco e líder local) é inquestionável; é em sua esfera privada, em seu papel de matriarca da família, que seu poder é desafiado.

Também gostei da exploração psicológica complexa do romance e da maneira como as descrições de paisagens externas costumam parecer um reflexo das lutas internas e dos estados mentais dos personagens. Nosso narrador faz um tour pelas diferentes perspectivas de muitos dos personagens, jogando com nossas primeiras impressões e preconceitos: na maioria das vezes, um personagem que parecia uma pessoa perfeita em uma parte é revelado como moralmente defeituoso na próxima; Uma motivação superficial é mostrada como uma situação complexa. A autora não parece julgar seus personagens, mas sim o que ela faz lançar uma luz sobre as ambivalências desses personagens, suas complexidades, suas múltiplas dimensões. E nos leitores somos jogados nas vidas interiores desses personagens, e aqui não há uma resposta simples: eles são pessoas imperfeitas, presos em um emaranhado de auto-enganos – e, precisamente por causa disso, a gente passa a simpatizar com eles.

Este foi particularmente o caso de Edward e seu relacionamento conturbado com Catherine: preso entre gratidão e ressentimento, ele está dividido entre seu dever como filho adotivo e seu desejo de liberdade. Muito parecido com ele, nos sentimos divididos entre ver as escolhas de Catherine como expressões de amor maternal ou como extensão de seu desejo de poder e controle.

Tanto em Miss Marjoribanks (1866) quanto em Hester (1883), temos protagonistas femininas que não se importam muito com o amor romantico e que escolhem o casamento apenas como meio de autodesenvolvimento. Temos mulheres como Lucilla Marjoribanks e Catherine Vernon, que exercem poder em suas comunidades locais. Temos mulheres que se sentem frustradas e desdenhadas, mulheres que sabem que poderiam fazer mais do que suas sociedades estão dispostas a permitir. Como Lucilla, Hester adia o casamento enquanto pode, e tem ambições de fazer algo que importa com sua vida: “Eu gostaria de fazer o que ela [Catherine] fez. Algo fruto do próprio livre arbítrio – algo que ninguém pode lhe dizer ou exigir que você faça – o que não é nem mesmo seu dever. Algo voluntário, até perigoso (…). Isso é exatamente o que eu nunca poderei fazer.

Em ambos os romances, a autora esta ali pisando na corda bamba da convenção: ela se recusa a prender suas heroínas na gaiola da narrativa tradicional, mas, ao mesmo tempo, tenta permanecer na vizinhança aceitável daquela gaiola – cobrindo com sátira e humor suas tentativas de trasngressao.

As opiniões sobre os méritos literários de Oliphant são divididas: Virginia Woolf critica o trabalho de Oliphant e escreve, em Three Guineas (1938), que “Mrs. Oliphant vendeu seu cérebro, seu admirável cérebro, prostituiu sua cultura e escravizou sua liberdade intelectual para que pudesse ganhar a vida e educar seus filhos ”. Merryn Williams, por outro lado, escreveu no livro Women in the English Novel 1800-1900 (1984), que a visão de Oliphant é muito mais sofisticada do que a de seus contemporâneos, e que muitas vezes ela parece pertencer a outra era. Em uma nota de obituário escrita após a morte de Oliphant, em 1897, Henry James afirmou que “poucos escritores de nosso tempo foram tão organizados para uma produção tao prodiga, e – pode-se quase dizer – heróica.” Embora Oliphant nunca tenha ganhado a reputação de Jane Austen ou George Eliot, ela era conhecida por ser a romancista favorita da rainha Victoria.

Ao longo de sua carreira, Oliphant publicou quase cem romances, e inúmeras outras obras de ficção e não-ficção. Mesmo que ela tenha sido muito admirada durante sua vida, a maior parte de seus livros permanece hoje fora de catálogo.


Poema falado

Agora, ao final do episodio, e hora do nosso Poema falado, um segmento dedicado à leitura de poesia. Agora eu leio um poema de uma amiga de Margaret Oliphant, a escritora irlandesa lesbica Emily Lawless, também conhecida por sua relação amorosa com Lady Sarah Spencer:

“Na Espanha

Seu céu é de um azul duro e brilhante,
Sua terra e areia, ouro ofuscante,
Seja ouro ou azul, é o tom apropriado,
Você diz, para um espadachim ousado.

Na terra que deixei, o céu está frio
O solo é verde, o rochedo vazio,
Mas pode o diabo ficar com todo o azul e o ouro
Pudesse eu voltar a meu nascedouro!

Tradução minha. O original do poema pode ser encontrado na coletânea “Anthology of Irish verse”, ed. Por Padraic Colum, e publicada em 1922.

Original:

In Spain

YOUR sky is a hard and a dazzling blue,
Your earth and sands are a dazzling gold,
And gold or blue is the proper hue,
You say for a swordsman bold.

In the land I have left the skies are cold,
The earth is green, the rocks are bare,
yet the devil may hold all your blue and your gold
Were I only once back there!


É isso, pessoal.


Se vocês tiverem algum comentário, sugestão, critica, ou pergunta, ou mesmo se quiserem participar do podcast, basta entrar em contato comigo por minhas redes sociais, que estarão linkadas nas show notes desse episódio. Eu sou @blankgarden no Instagram, e @ablankgarden no Twitter. Caso vocês oucam o podcast no aplicativo Anchor, vocês também podem me mandar mensagens de voz por lá. Também disponibilizo as transcrições de cada episódio na página do podcast, para quem não tem condições de ouvir. Todos os links vocês encontram no box de descrição desse episódio.


E agora eu tenho uma pergunta para você que me ouviu até aqui: Voce já leu algum livro da Margaret Oliphant? O que achou dela? Há algum outro livro ou autora que você gostaria que eu abordasse aqui? E so deixar sua opinião ou comentário nas redes sociais do podcast.


Muito obrigada por terem escutado até aqui. Espero que tenham gostado, e até o próximo episódio!


Esse episódio foi escrito, produzido e apresentado por Juliana Brina, em julho de 2019. A musica tema foi baseada no quarto movimento da peca Sinfonia No. 3 em A menor, Op. 56, conhecida como the Scottish, composta por Felix Mendelssohn entre 1829 e 1842, executada pela Orquestra Sinfonica de Fulda, com direção de Simon Schindler, gravada em 09 de Marco de 2004, e disponibilizada, na Wikimedia Commons.


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Até o próximo episódio,

J.

 

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