S01EP09 – Autoras lidas por Jane Austen (I): Frances Burney e seu romance Evelina (1778)

Ensaio, Resenha

Nesse episódio, dou dou início a uma serie sobre escritoras lidas por Jane Austen, e falo sobre Frances Burney e seu romance Evelina (1778).

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Para participar e enviar mensagens de voz: https://anchor.fm/julianabrina/message

Livro discutido no episódio:


Livros sobre Frances Burney:

  • Frances Burney: The Life in The Works, de Margaret Anne Doody (1988)
  • Fanny Burney: A Biography, de Claire Harman (2001)
  • Fanny Burney: The Mother of English Fiction, de Nigel Nicolson (2002)
  • Journals and Letters. ed. Peter Sabor e Lars E. Troide (2001)

Transcrição do episódio

“Olá,

Meu nome é Juliana e esse é o podcast Clássicxs sem Classe, no qual eu discuto clássicos escritos por mulheres pouco lidas, não traduzidas, excluídas do cânone ou esquecidas, bem como clássicos da literatura queer. Tudo sem a menor classe, claro.


No episódio anterior, eu falei sobre Radclyffe Hall e seu romance O Poço da Solidão (1928), e hoje eu dou um salto ao passado e dou início a uma serie sobre escritoras lidas por Jane Austen. Mas antes, eu gostaria de agradecer a todos que tomaram seu tempo para ouvir e comentar o episódio anterior, e em especial a Juju Gomes do perfil de mesmo nome, Marcia Huber do perfil @marciadch, e Robson do perfil @woolfiano que compartilharam o episódio no Instagram. Obrigada, gente! Se por acaso você também compartilhou o podcast e eu não vi, obrigada! E só me marcar na publicação, para que eu possa ver e agradecer aqui da próxima vez.

Por que criar essa série?

 

Sobre o tema dessa série de episódios, preciso dar um contexto. Frequentemente, Jane Austen e mencionada como a primeira escritora do sexo feminino, e varias antologias de literatura inglesa ou mesmo de literatura considerada “ocidental” fazem parecer que, até o século XIX, Jane Austen foi a única mulher que publicou algo de “mérito literário”, algo que vale a pena ser lido.

Essa ideia e repetida ate mesmo por muita gente comprometida com a crítica literária feminista, e se repete que Jane Austen teria sido a primeira a criar personagens femininas complexas, a usar discurso indireto livre, ou a a viver de literatura – essas são ideias que são repetidas ate com bias intenções, a fim de se jogar luz sobre uma escritora do sexo feminino, mas que acabam por cometer uma espécie de reducionismo ou mesmo de erro histórico, e acabam por contrariar sua própria intenção inicial e por colaborar para o apagamento das demais escritoras anteriores a Austen.

E essas são ideias que, embora muitas vezes refletem o fato de que as pessoas simplesmente não leram nada anterior a Jane Austen, em sua maior parte apenas refletem um pensamento repassado por críticos literários de meados do século XIX ate meados do século XX que escreviam sobre a ascensão do romance na literatura de língua inglesa.

Bom, esse tópico daria pano para manga para mais de um episódio, mas, só para servir de exemplo, em uma das obras mais citadas sobre o tema, The Rise of the Novel (1957), Ian Watt observa que “a maioria dos romances do século XVIII foi realmente escrita por mulheres mas isso permaneceu por muito tempo uma afirmação de predominância puramente quantitativa”. E ele continua, e diz que foi somente Jane Austen quem “desafiou a predominancia masculina” em termos qualitativos. E e de se perguntar por que essa afirmação foi aceita pela comunidade acadêmica em 1957 sem debate e sem apoio de evidências, e continua a ser repetida hoje até mesmo por pessoas comprometidas com a crítica literária de moldes feministas.

Jane Austen foi a primeira mulher a usar discurso indireto livre? Não, essa técnica narrativa surgiu na Europa no século XVIII, foi muito empregada, por exemplo, nos romances de Camilla de Fanny Burney (1796) e Belinda de Maria Edgeworth (1801) – mas essa tecnica foi isso sim refinada e elevada a seu ápice por Jane Austen.

Jane Austen foi a primeira mulher a criar personagens femininas complexas? Não, nos temos personagens femininas “cheias” (que apresentam defeitos e qualidades) já em Evelina de Frances Burney (1778), Belinda de Maria Edgeworth (1801), Emmeline, de Charlotte Smith (1788), mas são personagens coadjuvantes; o que Jane Austen fez foi criar protagonistas complexas.

Jane Austen foi a primeira mulher a viver de literatura? Não, como nos já vimos alguns episódios atrás, nos temos o exemplo de Aphra Behn, que publicamente se apresentava como escritora profissional (e que teve sua respeitabilidade comprometida por isso, dentre outros fatores). A pessoa pública projetada por Austen não era a de uma escritora profissional, mas apenas a partir da leitura de suas cartas privadas e possível depreender que ela tinha sim o caráter financeiro e comercial em vista ao publicar seus livros.

Jane Austen não foi a primeira escritora do sexo feminino nem no âmbito mais restrito da literatura inglesa nem no mais amplo da literatura ocidental – mas ela foi uma das melhores escritoras de seu tempo – entre homens e mulheres – e por isso que ela e incontornável nas discussões sobre cânone literário. E Austen foi incontornável justamente porque pegou muitos desses elementos que já se encontravam em escritores anteriores e os aprimorou – e dessa forma contribuiu para o desenvolvimento e a consolidação do que hoje se considera como romance, de modo que qualquer obra que se proponha a estudar o tema da formação e ascensão do romance e de seu cânone não pode deixar de mencioná-la. E se você olhar para escritores contemporâneos de Austen, homens e mulheres, ela e uma das únicas que ainda e lida hoje, fora do meio acadêmico, e lida por prazer. O que fica claro é que há dois pesos e duas medidas no que tange à definição do cânone: para escritoras, o standard mínimo é Austen; para escritores, porém, basta que atinjam o nível de um Samuel Richardson.

Quem só se aproximou de Austen pelas adaptações cinematográficas talvez tenha ate uma ideia limitada do que os livros dela são – talvez imagine que são comedias românticas de menor interesse literário. Parte disso se deve ao fato de que a própria ideia de comedia romântica ou de temas domésticos em geral seja vista como inferior; e parte se deve ao fato de que o verdadeiro coração dos livros da Austen, que e a sátira social, não tenha sido tão explorado nas adaptações para o cinema. Talvez seja difícil transpor para a tela a ironia fina que e a marca da Austen. Mas o que eu acho interessante e o fato de que ela conseguiu contornar muito bem os limites impostos a escritoras de seu tempo: se sátiras não eram bem vistas na pena de uma mulher (porque isso poderia comprometer a reputação), Jane revestiu suas sátiras ferinas com uma aparência de historia romântica; se temas domésticos eram os únicos aceitáveis como objeto de livros escritos por mulheres, Jane usa o cenário domestico e circunscrito de algumas poucas famílias para sutil e indiretamente fazer uma crítica social muito mais ampla; e, se uma mulher que se atreve a criticar a sociedade de seu tempo e mal vista por tocar em assuntos então considerados como parte da esfera masculina, Jane reveste sua critica social com um tom de comedia. Ela soube negociar muito bem essa tensão entre seu talento e sua reputação.

O que farei nessa série é dar alguns passos para trás, e explorar escritoras que nos sabemos que Jane Austen leu – seja porque ela as menciona em suas cartas e anotações pessoais, seja porque ela faz referencia a essas escritoras em seus romances.

E a primeira das escritoras lidas por Austen que vou mencionar hoje é Frances Burney.


“Escreverei meu diário para Ninguém! – porque apenas para Ninguém posso ser totalmente sem reservas; para Ninguém posso revelar todos os meus pensamentos, todos os desejos do meu coração, com a mais ilimitada confiança, a mais ininterrupta sinceridade, até o fim da minha vida! (…) Nenhum segredo posso ocultar de Ninguém, e para Ninguém posso ser sem reservas.”, entrada de 27 de março de 1768 dos diários de Frances Burney, em tradução minha

 

Frances Burney (também conhecida como Fanny Burney; nome casado Madame d’Arblay) foi uma escritora inglesa, nascida em 13 de junho de 1752.

Enquanto suas irmãs foram enviadas pelo pai para serem educadas em Paris, Frances, que ainda era analfabeta aos oito anos de idade e era considerada uma criança menos talentosa, foi educada em casa. Diz-se que Frances sofria de uma forma de dislexia e se auto educou lendo a coleção de livros da família. Quando ela tinha dez anos, ela começou a escrever histórias como uma forma de entretenimento. Aos onze anos, sua família começou a chamá-la de “a Velha Senhora”, por causa de seu comportamento sisudo e grave. Sua mãe morreu quando Burney tinha 10 anos. Quando tinha quinze anos, por insistência do pai e da madrasta, Frances queimou os manuscritos do primeiro romance que escreveu, The History of Caroline Evelyn (A História de Caroline Evelyn).

Em 1778, Frances publicou anonimamente seu primeiro romance, Evelina, que fora escrito como uma sequência de The History of Caroline Evelyn. O romance foi um sucesso, e o segredo sobre sua autoria foi logo revelado. Burney foi então convidada por Hester Thrale, uma das famosas Bluestockings e patrona das artes, para visitar sua casa e participar de seus salões. Foi a estréia de Burney na sociedade literária, e ela então conheceu Elizabeth Montagu, outra famosa Bluestocking, e tornou-se íntima da artista Mary Delany.

Estou morrendo de medo de ser atacada como autora e, portanto, ao invés de procura-las, evito todas as ocasiões em que posso ser notada.” Frances Burney, Diário, setembro de 1778, em traducao minha.

Em 1782, Burney publicou outro romance de sucesso, Cecilia. Jane Austen parece ter sido inspirada por uma frase em Cecilia para nomear seu romance Orgulho e Preconceito: “Todo esse negócio infeliz“, disse o Dr. Lyster, “foi resultado de orgulho e preconceito. No entanto, lembre-se: se ao Orgulho e Preconceito você deve suas misérias, o bem e o mal estão tão maravilhosamente equilibrados, que ao Orgulho e Preconceito você também deverá o fim deles…”

Podemos encontrar referencias ao romance Cecilia (1782) e ao romance Camilla (1796) em Northanger Abbey “É somente Cecilia, ou Camilla, ou Belinda”; em Persuasao, e no romance inacabado Sanditon (“Ela pegou um livro; por acaso, era um volume de Camilla”). Há referências aos romances Evelina, Cecilia, Camilla e The Wanderer (O Andarilho) também nas cartas de Austen.

Austen era uma grande admiradora da obra de Frances Burney, e chegou a mencionar Cecilia e Camilla de Burney como duas das obras “nas quais são revelados os maiores poderes da mente, nos quais o conhecimento mais profundo da natureza humana é transmitido pela escrita mais bem executada.”

Dois outros grandes medalhões da época, Samuel Johnson e Edmund Burke, também estavam entre os admiradores de Burney.

Por meio de sua amizade com Delany, que era uma das personalidades favoritas da corte em Windsor, Frances pôde ser apresentada ao rei George III e à rainha Charlotte, em 1785. Logo depois, ela aceitou a oferta de um cargo de assistente da rainha. Solteira aos 34 anos e sem perspectivas concretas de carreira, Burney relutantemente aceitou o cargo.

Ela manteve diários detalhados durante todo o tempo em que esteve na corte, mas achou a posição exaustiva e lamentou a falta de tempo para escrever ficção. Em 1790, ela convenceu o pai a elaborar uma petição à rainha, pedindo permissão para renunciar ao cargo por motivos de saúde. Frances foi então autorizado a se aposentar com um salário mínimo, recebendo uma pensão anual de £ 100, e deixou o cargo em 1791. Ela voltou para a casa de seu pai e continuou a se corresponder com a família real até 1840.

Durante esse período, Burney apoiava os ideais da Revolução Francesa, particularmente no que diz respeito à igualdade e à justiça social. Ela conheceu um grupo de exilados franceses e foi apresentada à escritora Germaine de Staël. Nessa época, aos 41 anos, Frances se apaixonou por Alexandre-Jean-Baptiste Piochard D’Arblay, um soldado de carreira francês e ex-assistente do marquês de Lafayette. O pai dela se opôs ao relacionamento e se recusou a comparecer ao casamento, que veio a ocorrer em 1793. Em 1794, Frances deu à luz um filho, Alexander. Como D’Arblay estava sem um tostão, o que sustentava a família era a pensão dela como funcionaria aposentada da corte e o produto de seus romances.

Em 1796, ela publicou Camilla, em três volumes, através de uma campanha de assinatura. Ann Radcliffe, Hannah More, Maria Edgeworth e Jane Austen estavam entre os assinantes do romance. Om o que ganhou, Frances conseguiu construir uma casa em Surrey, para onde a família se mudou em 1797.

Em 1801, seu marido recebeu um posto oficial no governo de Napoleão Bonaparte e Frances e seu filho se mudaram para a França em 1802. Por causa da guerra entre a França e a Inglaterra, eles se viram presos no país e permaneceram em Paris como exilados por dez anos.

Em 1811, depois de sofrer de dores no peito por cerca de um ano, Frances teve um câncer diagnosticado na mama direita e foi submetida a uma mastectomia, realizada pelo cirurgião militar de Napoleão, em uma operação realizada sem anestesia. Um ano depois, ela foi autorizada a retornar à Inglaterra com seu filho, para visitar seu pai doente. A essa altura, Alexander começou seus estudos em Cambridge. Em 1812, Frances publicou The Wanderer, um romance sobre A Revolução Francesa, que ela escreveu enquanto morava na França.

Após a morte de seu pai, em 1814, Burney voltou a Paris e depois foi para Bruxelas, onde seu marido tinha assumido um cargo militar. Ela registrou em seus diários os eventos que levaram a Waterloo. Dizem que William Makepeace Thackeray fez uso das anotações de Burney no diário para escrever seu romance Vanity Fair. D’Arblay foi ferido durante uma campanha e foi forçado a se aposentar do exército.

Em 1815, eles retornaram à Inglaterra e se estabeleceram em Bath. Em 1818, o marido de Frances morreu pelo que parece ter sido câncer de cólon. Frances então se mudou para Londres, onde dedicou seu tempo a escrever as Memórias de seu pai, publicadas em 1832. Em 1837, o filho de Frances, cuja vida havia sido marcada por problemas de saúde e depressão, morreu de febre repentina.

Frances Burney morreu em sua casa, em Bath, em 6 de janeiro de 1840. Seus escritos influenciaram significativamente Jane Austen, entre outros. Em A Room of One’s Own (1929), Virginia Woolf escreveu que “Jane Austen deveria ter colocado uma coroa de flores no túmulo de Fanny Burney“.

Raramente acontece que um homem, embora exaltado como santo, seja realmente desprovido de defeitos; ou que um homem, apesar de criticado como demônio, seja realmente desprovido de humanidade. ”- Fanny Burney, Evelina (1778), em tradução minha

Parece ser uma verdade universalmente reconhecida – ou, pelo menos, reconhecida no mundo relativamente limitado do romance Evelina (1778) – que uma mulher solteira em idade de casar, mesmo que possuidora de beleza física e boa índole, se não possuir um bom dote, estará na mira de abuso psicológico e humilhação social.

Nossa protagonista, Evelina, é filha de um aristocrata moralmente dissipado e de uma mulher que perdeu reputação apos dar a luz fora do casamento. Depois que o pai as abandonou, a mãe morre durante o parto, e nossa heroína é criada em reclusão no interior por um reverendo. Quando ela tinha 17 anos, uma série de eventos a leva a Londres e Bristol, onde foi pela primeira vez confrontada com sua completa ignorância das regras e convenções da alta sociedade.

Seguimos nossa pobre Evelina, enquanto ela faz uma série (um tanto hilária) de passos em falso, chama a atenção de praticamente todos os cavalheiros ao seu redor, é até fisicamente abordada pela maioria deles, corajosamente salva um homem suicida, é atacada por um marinheiro bêbado (apenas para ser resgatada por prostitutas) e, finalmente, encontra o amor verdadeiro (e um casamento seguro) com a ajuda de uma solteirona sarcástica (e um tanto “masculina”).

O charme do romance é o nítido contraste entre a boa indole e ingenuidade de Evelina e a depravação do mundo ao redor dela. Quanto mais nossa protagonista se sente deslocada na sociedade, mais são tornadas transparentes para nós as profundas deficiências morais dessa sociedade: apesar do fato de Evelina não ter noção de como se comportar, o bom senso inato dela sempre a leva a fazer a escolha moral correta (como se estivesse guiada por uma mão invisível). Embora, por um lado, devido a seus erros, ela não pareca moralmente correta para as pessoas ao seu redor, somos obrigados a ver que ela é de fato a única pessoa moral ali.

O simples fato de ela freqüentemente entender mal as regras de civilidade e expectativas sociais sobre ela deixa claro para nós a irracionalidade de tais regras e o caráter opressivo de tais expectativas. Não podemos deixar de sentir o olhar atento da escritora às contradições de gênero e classe do seu tempo – e, particularmente, a ironia por trás do fato de que uma garota tão bem-comportada na verdade não tem lugar em uma sociedade que professa valorizar essas mesmas virtudes; uma sociedade que, na realidade, se baseia em fingimento e mentira.

Parte do espanto e do deslocamento social de Evelina reside no fato de ela nunca entender realmente que as boas aparências e refinamento das pessoas ao seu redor estão completamente desconectadas do verdadeiro valor moral. Mais do que um romance de formacao, a história de Evelina é uma aventura para permanecer virtuosa em um mundo onde isso parece ser de pouca utilidade e, às vezes, simplesmente impossível; um mundo onde a aparência da virtude é mais importante que a própria virtude.

Lembre-se, minha querida Evelina, nada é tão delicado quanto a reputação de uma mulher: essa é, ao mesmo tempo, a mais bela e mais frágil de todas as coisas humanas.” – Fanny Burney, Evelina, em traducao minha

Gostei particularmente da ironia e do humor negro com que o livro explora o profundo contraste entre o que era socialmente esperado de homens e mulheres na Inglaterra do século XVIII: não apenas as mulheres estavam sujeitas a todo o tipo de abuso e zombaria, mas também, elas frequentemente se tornavam as principais vítimas dos erros cometidos pelos homens ao seu redor. O duplo padrão moral aplicado a homens e mulheres tornava estas últimas mais vulneráveis ​​a serem abusadas ​​e aproveitadas. Evelina é agarrada, atacada verbalmente, zombada e provocada pela maioria dos homens na história – mas ela tem que ter muito cuidado para não reclamar explicitamente, para que não seja considerada de uma mulher de má índole, uma mulher difícil, e, o pior de tudo, imprópria para o casamento.

Não é de admirar que nossa heroína esteja acima de tudo, obcecada por sua reputação: em seu mundo, o valor de uma mulher repousa unicamente em sua aparência externa, sua submissão, docilidade, inocência e no seu dote; pior ainda, em seu mundo, não apenas as mulheres estão constantemente em perigo de sofrerem agressão masculina, mas também são forçadas a fazer pouco disso.

Esse romance quase se parece com um catálogo das várias maneiras pelas quais a inocência que a sociedade obrigava as mulheres a manter era manipulada pelos homens; além disso, um catálogo das maneiras pelas quais a boa indole e a ingenuidade femininas eram fetichizadas pelos homens como um poderoso meio de controle.

No mundo da protagonista, os homens consideram as mulheres como mercadorias (se são ricas e com idade para casar), meras presas sexuais (se são pobres, mas bonitas) ou como objetos de escárnio (uma vez que ultrapassam essa idade). Nas palavras de um dos personagens, Lord Merton, “uma mulher não tem nada que a recomende, a não ser beleza e boa indole; em tudo o mais, ela é impertinente ou antinatural. Que caia um raio na minha cabeça se algum dia eu escutar algo que faca sentido da boca de uma mulher!

Como a maioria dos personagens masculinos aborda Evelina de várias maneiras bastante agressivas, ela é forçada a sentar, esperar, sorrir e se afastar da maneira mais gentil, tudo em nome de decoro – como se fosse sua responsabilidade pintar qualquer tipo de abuso com um ar de civilidade, a fim de evitar comprometer sua virtude: porque se ela se revelar capaz de reconhecer um abuso pelo que é, ela deixa claro que ela não é tão inocente e ai perde sua reputação. Nesse sentido, o romance sobre um tipo diferente de formação educação sentimental: mais do que um livro sobre o desenvolvimento moral de uma garota, é a história de uma garota que gradualmente aprende a evitar ou desviar de abusos e a evitar as piores conseqüências das diversas formas de assédio que ela sofre em seu processo socialização. Abuso.

Minha personagem favorita é a Sra. Selwyn, a solteirona, e seu papel ambivalente no romance nunca deixa de me intrigar. Considerada com desconforto por todos como uma ‘mulher masculina’, ela é obstinada, irônica, perspicaz, desafiadora e frequentemente agressiva: a Sra. Selwyn é a única mulher corajosa o suficiente para zombar dos homens e responsabilizá-los por seus crimes. Ela está constantemente desafiando os estereótipos associados ao seu gênero, agindo fora dos papéis prescritos – e, assim, criando um grande desconforto entre todos os personagens, que – incluindo Evelina – parecem não gostar dela.

Quase somos levados a considerar a sra. Selwyn como os outros personagens – de maneira negativa; ao mesmo tempo, no entanto, não podemos deixar de nos sentir fascinados por sua ousadia e a maneira como ela tenta proteger Evelina, conduzindo essa protagonista à independência, a consciência de si e o autoconhecimento. Aqui, novamente, a autora parece lançar luz sobre a ironia no fato de que essas características muito positivas – independência, a consciência de si e o autoconhecimento – permanecem, no mundo de Evelina, profundamente perigosas para ela, pois ameaçam minar as virtudes que são mais valorizadas socialmente para mulheres: sua inocência (ou a aparência dela) e, portanto, sua reputação.

Esse romance é algo estranho: uma trama tradicional de casamento que nunca questiona abertamente o papel da mulher no mundo; e, ao mesmo tempo, uma sutil condenação dessa sociedade em que as mulheres são oprimidas e submetidas para desempenhar um papel tão estreito. Colocada no centro das contradições de classe e gênero de seu tempo, Evelina é tão inverossimil quanto a fachada que a sociedade exigia que as mulheres mantivessem: ela deve ser sábia o suficiente para reconhecer e evitar o abuso masculino e ingênua o suficiente para nunca perceber o que é um abuso.

Por mais que sejamos tentados a ler o romance como um Bildungsroman, não podemos deixar de sentir que impossível que um personagem atinja a maturidade, em um contexto em que não é permitido que esse personagem perca inocência. Desde o início, sentimos que qualquer crescimento verdadeiramente pessoal por parte de Evelina significaria algum grau de perda de inocência e reputação – e, em última análise, significaria sua ruina social. A chegada da maturidade, se é que acontece, é do leitor: enquanto Evelina permanece em um estado perpétuo de inocência (e é assim recompensada com um bom casamento), nós, como leitores, não podemos deixar de ver, no final, o caráter falso de tudo isso.

É isso, pessoal.

Se vocês tiverem algum comentário, sugestão, critica, ou pergunta, ou mesmo se quiserem participar do podcast, basta entrar em contato comigo por minhas redes sociais, que estarão linkadas nas show notes desse episódio. Eu sou @blankgarden no Instagram, e @ablankgarden  no Twitter. Caso vocês oucam o podcast no aplicativo Anchor, vocês também podem me mandar mensagens de voz por lá. Se tiverem interesse de saber mais sobre Fanny Burney, deixarei uma lista de livros sobre a autora na página do podcast. Todos os links vocês encontram no box de descrição desse episódio.

E agora eu tenho uma pergunta para você que me ouviu até aqui: Voce já leu algum livro de Frances Burney? Voce acha que ela ainda merece ser lida? Quais a semelhanças e diferenças você pode notar entre essa autora e Jane Austen?

E so deixar sua opinião ou comentário nas redes sociais do podcast.

Muito obrigada por terem escutado até aqui. Espero que tenham gostado, e até o próximo episódio!


Esse episódio foi escrito, produzido e apresentado por Juliana Brina, em Novembro de 2019. A musica tema foi baseada na Sinfonia n. 41, também conhecida como ‘Jupiter’, composta por Wolfgang Amadeus Mozart em 1788, executada pela Wiener Philharmoniker, com direção de Riccardo Muti.


Caso tenha alguma sugestao ou queira participar de algum episódio do podcast (é tudo caseiro, nao se acanhe), é só entrar em contato comigo. Basta comentar aqui ou me enviar uma mensagem por meio de minhas redes sociais: Instagram / Twitter / Blog / Outros

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Até o próximo episódio,

J.

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