S02E24 – Victober (Outubro Vitoriano) – A Rainha de Gondal: Um Romance em Versos, de Emily Brontë (Gondal’s Queen: A Novel in Verse, ed. Fannie E. Ratchford, 1955)

Artigo, Resenha

Nesse episódio, dou início a uma série de recomendações de livros vitorianos para o Victober (Outubro Vitoriano), explico em que consiste o evento, e falo sobre a obra Rainha de Gondal: Um Romance em Versos, uma coletânea de poemas de Emily Brontë, editada por Fannie E. Ratchford em 1955.

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Playlist Autoras Vitorianas:


Livros mencionados no episódio:

  • Gondal’s Queen: A Novel in Verse, by Emily Brontë, ed. Fannie E. Ratchford (1955)

Livros sobre a autora e o tema:

  • Emily Brontë Reappraised by Claire O’Callaghan (2018)
  • To Walk Invisible (TV Movie, 2016, IMDb)
  • The World Within: A Novel of Emily Brontë by Jane Eagland (2015)
  • Romancing Miss Brontë by Juliet Gael (2010)
  • Emily’s Ghost: A Novel of the Brontë Sisters, by Denise Giardina (2009)
  • Charlotte and Emily: A Novel of the Brontës, by Jude Morgan (2009)
  • The Taste of Sorrow by Jude Morgan (2009)
  • Shaggy Muses: The Dogs Who Inspired Emily Brontë, Elizabeth Barrett Browning, Emily Dickinson, Edith Wharton, and Virginia Woolf, by Maureen Adams (2007)
  • The Brontë Myth, by Lucasta Miller (2001)
  • The Brontës, by Juliet Barker (2000)
  • Emily Brontë, by Steven Vine (1998)
  • The Birth of Wuthering Heights, by Edward Chitham  (1998)
  • Emily Brontë: Heretic by Stevie Davies (1997)
  • Brontë by Glyn Hughes (1996)
  • A Chainless Soul: A Life of Emily Brontë, by Katherine Frank (1992)
  • Emily Bronte, by Lyn Pykett (1989)
  • The Brontës: Charlotte Brontë and her family, by Rebeca Fraser (1988)
  • A Life of Emily Bronte, by Edward Chitham (1987)
  • The Brontës: The Critical Heritage, by Miriam Allott (1984)
  • In the Footsteps of the Brontës, by Ellis Chadwick (1982)
  • Emily Brontë, by Richard Benvenuto (1982)
  • The Art of Emily Bronte, edited by Anne Smith (1980)
  • Emily Brontë, by Charles Simpson (1977)
  • Path to the Silent Country: Charlotte Brontë’s Years of Fame, by Lynne Reid Banks (1977)
  • Dark Quartet: The Story of the Brontës, by Lynne Reid Banks (1976)
  • Emily Brontë, by Winifred Gérin (1971)
  • Romantic Imprisonment: Women and Other Glorified Outcasts, by Nina Auerbach (1985)
  • Emily Brontë. Her Life and Work, by Muriel Spark (1960)
  • The Brontës’ Web of Childhood, by Fannie Ratchford (1941)
  • The Brontës: Their Lives, Friendships and Correspondences, edited by T. J. Wise and  J. A. Symington (1932)
  • ‘This Changeful Life: Emily Brontë’s Anti-Romance’, by Nina Auerbach, in Shakespeare’s Sisters: Feminist Essays on Women Poets, ed. by Sandra Gilbert and Susan Gubar (1979)
  • Emily Brontë, by F. Mary A. Robinson (1883)

Transcrição do episódio:

“Olá,

Meu nome é Juliana e esse é o podcast Clássicxs Sem Classe, no qual eu discuto clássicos escritos por mulheres pouco lidas, não traduzidas, excluídas do cânone ou esquecidas, bem como clássicos da literatura queer. Tudo sem a menor classe, claro.

No episódio anterior, eu falei sobre a escritora alemã Irmgard Keun, e suas obras Gilgi, Eine von Uns (1931, Gilgi, Uma de Nós) e Kind aller Länder (1938, Criança de todos os Países). No episódio de hoje, eu dou início a uma série de recomendações de livros vitorianos para o Outubro Vitoriano (#Victober), e falo sobre a obra Rainha de Gondal: Um Romance em Versos, uma coletânea de poemas de Emily Brontë, editada por Fannie E. Ratchford em 1955.

Mas antes, é preciso saber

O que é o Victober?


Victober (“Outubro Vitoriano”) é um evento literário criado por três leitoras de língua inglesa, KateKatie, e Lucy, que tem por objetivo estimular a leitura de literatura vitoriana durante o mês de outubro. Por “Literatura Vitoriana”, as anfitriãs do evento do evento entendem qualquer livro publicado de 1837 a 1901 no Reino Unido.

As anfitriãs do evento também definiram alguns prompts ou desafios temáticos para inspirar nossas leituras, e também mantêm um grupo Goodreads, no qual, entre outras coisas, podemos discutir nossas escolhas, debater as leituras, e receber recomendações de livros.

Eu gosto muito de literatura vitoriana, e participo do evento desde o início, já participei de alguns dos vídeos criados pelas meninas. Nesse ano, porque o tema do evento se encaixa na proposta do Clássicxs, elas acharam bacana que eu o mencionasse aqui e fizesse alguns episódios temáticos a respeito, direcionados aos leitores de língua portuguesa.

Vou fazer alguns episódios com recomendações de livros para cada um dos desafios de leitura do Victober. E começo hoje pelo desafio de Kate: ler um livro ou conto que você ainda não leu de um autor vitoriano favorito.

Desafio da Kate

Uma de minhas autoras vitorianas favoritas é Emily Brontë. O Morro dos Ventos Uivantes é uma obra que divide muitos leitores, mas eu acho fascinante como o livro é um ponto fora da curva do que se esperava que uma mulher escrevesse naquela época. O livro é repleto de personagens desprezíveis, repleto de ódio, de violência, e desejo de vingança – não tem nada “edificante” ali.

E eu acho interessante o contraste entre a pessoa da Emily (introvertida e tímida) e a natureza da obra que ela escreveu. E acho interessante também a forma como se tentou naturalizar essa obra ao longo do tempo, classificando-a como “uma história de amor” (quem leu o livro sabe que o que se tem ali não pode exatamente ser chamado de amor…). Enfim, o Morro dos Ventos Uivantes é uma de meus livros favoritos da vida, e serei para sempre órfã das obras que Emily Bronte teria escrito se não tivesse falecido tão jovem.

Pois bem, para outros leitores órfãos da Emily, eu sugiro um livro que é uma tentativa de reconstrução de um romance a partir dos poemas escritos por Emily Bronte. Essa obra chama-se Gondal’s Queen: A Novel in Verse (1955, ‘Rainha de Gondal: Um Romance em Versos’), editada Fannie E. Ratchford.

Gondal é uma ilha imaginária no Pacífico Norte, criada pelas irmãs Emily e Anne Bronte, e povoada com personagens imperfeitos e implacáveis, muitas vezes levados a batalhas épicas. E esse reino, Gondal, é considerado pela crítica literária Nina Auerbach “o quarto secreto da imaginação de Emily Brontë”.

E quem é que não gostaria de adentrar esse quarto secreto? Pois bem, A Rainha de Gondal (1955) é a tentativa de Fannie E. Ratchford de entrar nesse quarto e de reconstruir o universo de Gondal como um romance em versos. Se isso soa como uma espécie de violação, é porque é isso mesmo – mas trata-se de uma violação interessante.

O reino de Gondal tem suas origens na Glass Town Conféderacy, um universo imaginário anterior criado por Emily, juntamente como Charlotte, Anne, e seu irmão Branwell. Tudo começou em 5 de junho de 1826, quando o pai deles trouxe para casa uma caixa com doze soldadinhos de madeira, e a deu de presente para Branwell. Cada um dor irmãos pegou um soldado para si, e os soldados se tornaram personagens em um mundo imaginário compartilhado que povoou as brincadeiras de infância das crianças Brontë.

Cansadas do papel secundário que elas desempenhavam no reino de Andria, criado por Charlotte e Branwell, Emily e Anne decidiram criar seu próprio mundo imaginário: The Gondal Chronicles são peças em prosa que Emily escreveu em letras minúsculas em livrinhos pequenos que as crianças criaram, pensados para serem mantidos pelos soldados, como se esses fossem seus autores. As peças em prosa foram quase todas perdidas, mas, por meio dos poemas de Gondal e das alusões a Gondal em entradas de diário, fragmentos de listas e nas notas que Emily e Anne escreveram uma para a outra, podemos ter um esboço do mundo perdido que as meninas criaram e compartilharam .

Emily tinha cerca de oito anos na época que o irmão ganhou os soldados, e cerca de treze anos quando inventou o reino de Gondal, em 1831. Ela continuaria a escrever histórias e poemas sobre esse reino até a idade adulta e continuaria a escreve-los mesmo depois de ter concluído o romance O Morro dos Ventos Uivantes (1847). Emily escreveu em uma entrada diário de 1845, referindo-se aos personagens de Gondal: “pretendemos nos manter fieis a esses malandros, desde que continuem a nos deleitar“. Ainda em 1848, sete meses antes de sua morte, aos trinta anos, Emily estava trabalhando em um poema sobre a guerra civil de Gondal: ela nunca abandonou seu mundo imaginário.

Em uma entrada de diário de 24 de novembro de 1834, temos a primeira menção que ela fez a Gondal: após uma breve descrição dos eventos cotidianos com a família na cozinha, ela inseriu um comentário sobre seu reino inventado – “Os Gondals estão descobrindo os confins de Gaaldine”-, como se o real e o imaginário fossem uma só coisa, fluindo um do outro.

Nas notas que Emily e Anne trocavam em seus aniversários, nas quais relataram os acontecimentos de suas vidas no ano que passou, Emily sempre inseria uma descrição dos acontecimentos em Gondal naquele ano. Em uma entrada de diário de 26 de junho de 1837, ela registrou que estava a trabalhar em um volume sobre a vida de Augusta Almeda, a coroação da Rainha Vitória e a tal coroação da Rainha de Gondal: como Rainha Vitória, a Rainha Augusta Geraldine Almeda ascende ao trono de Gondal em 1837.

Em fevereiro de 1844, Emily copiou seus poemas em dois cadernos, um contendo poesia de Gondal (o Caderno Gondal) e outro contendo poesia não relacionada a Gondal (o Caderno E.J.B.).

No primeiro poema copiado no Caderno Gondal, datado de 6 de março de 1837 e intitulado AGA, a narradora Augusta Geraldine Almeda (AGA ou Rainha de Gondal) está na prisão, imaginando seu retorno ao túmulo de um de seus amantes, o Lord de Elba, para chorar sua morte: “Lá brilha a lua, ao meio-dia da noite”.

Há um poema anterior, no entanto, datado de 13 de dezembro de 1836 e encontrado em uma folha solta, que é considerado por alguns estudiosos, como Christine Alexander, como o primeiro poema de Gondal: “A urze dobra-se ondulante sob rajadas de tempestade, / Meia-noite, luar, estrelas brilhantes; / Escuridão e glória misturam-se em júbilo, / A Terra sobe aos céus e o céu desce, / Lançando o espírito do homem para longe de sua masmorra sombria, / Rompendo os grilhões e quebrando as barras. (…)”

Neste poema, já podemos ter uma noção de como era o reino de Gondal: um reino de escuridão, selvageria e rajadas de tempestade – “Por todas as encostas da montanha, a floresta selvagem empresta / Uma voz poderosa para o vento que dá vida”.

Os dois poemas mencionados acima nos apresentam a muitos dos tópicos recorrentes da autora (e que mais tarde seriam transpostos para O Morro dos Ventos Uivantes): o cenário noturno; a batalha das forças naturais, que, em nome de uma beleza indomável, quebram a paz vigente e refletem a tentativa dos personagens de se libertarem de algum tipo de prisão; a implacável vitalidade do vento como um símbolo tanto para a liberdade quanto para a destruição, um agente de tumulto, que reflete a luta interna dos personagens contra alguma forma de confinamento; o isolamento do cenário, que espelha o próprio isolamento, exílio ou solidão dos personagens; o mar tempestuoso, como símbolo da violência e da transitoriedade.

A coletânea elaborada por Ratchford, no entanto, não começa com nenhum desses dois poemas, mas com um poema encontrado em uma folha solta, sem data de composição nem título: “Frio, claro e azul, o céu da manhã / Expande seu arco para cima“. Ratchford afirma que este poema se refere ao aniversário de A. G. A., e sustenta essa afirmação dizendo que: (I) outros poemas nesta mesma folha são datados, respectivamente, de julho de 1836 e junho de 1838; (II) o poema coincidia com o início da história da Rainha de Gondal, com base em uma anotação de diário de julho de 1837, em que Emily disse que começou a escrever a vida de A.G.A; (III) o poema seria uma chave para o caráter da Rainha.

Este poema é seguido por outro, escrito na mesma folha que “Frio, claro e azul”, mas sem título, e datado de 12 de julho de 1836: “O dia estará claro ou nublado?”, que a organizadora da coletanea interpreta como o dia em que a mãe de AGA perguntou a uma vidente a respeito da vida da criança.

Ratchford sustenta sua afirmação de que este poema pertence a Gondal referindo-se ao fato de que está localizado imediatamente após o poema que ela identificara como relacionado ao nascimento de A.G.A. Nenhum desses poemas faz qualquer referência a Gondal, nem foram copiados no Caderno de Gondal. A partir disso, vocês já podem ter um gostinho das inferências criativas de que Ratchford faz uso frequente para organizar a história nessa coletânea.

O Caderno Gondal contém 44 poemas. A estes, Ratchford adiciona 40 dos demais poemas de Emily, e tenta organizá-los em uma sequência narrativa, inserindo poemas não-gondais por meio de inferências, bem como usando sua própria imaginação para suprir as lacunas na história. Do caderno E.J.B., por exemplo, ela acrescenta o poema “Minha alma não é covarde”, que ela lê como relacionado ao conflito republicano-monarquista em Gondal. Ela também adiciona o poema “Harpa de linhagem selvagem e onírica”, sem explicação, para se referir a um período em que A. G. A. envelhecera e estava se sentindo melancólica.

Alguns estudiosos argumentam que Ratchford simplesmente presumiu que A. G. A. era a mesma pessoa que dois outros personagens, Rosina Alcona e Geraldine Sidonia – um tópico altamente discutível. Na versão de Ratchford, Julius Brenzaida era amante de A. G. A., Angélica era enteada de A. G. A., Amedeus era irmão adotivo de Angélica e Alexandria era filha de A. G. A. (que ela mata). Em outras versões, Angelica é amiga de infância de A. G. A. e amante de Amadeus; Rosina Alcona é membro da aristocracia Gondal; e A. G. A. é filha de Julius Brenzaida com Geraldine Sidonia.

Quando Charlotte encontrou os poemas de Emily pela primeira vez, Emily ficou furiosa. Charlotte descreveu o incidente: “Um dia, no outono de 1845, acidentalmente encontrei um volume manuscrito de versos com a caligrafia de minha irmã Emily. Claro, eu não fiquei surpresa, já sabendo que ela escrevia versos: eu os li, e algo mais do que surpresa se apoderou de mim, – uma profunda convicção de que não eram efusões comuns, nem de forma alguma semelhantes à poesia que as mulheres geralmente escrevem. Achei-os condensados ​​e concisos, vigorosos e genuínos. Para meus ouvidos, eles também tinham uma música peculiar – selvagem, melancólica e elevada. Minha irmã Emily não era uma pessoa de caráter demonstrativo, nem uma pessoa em cujos lugares recônditos da mente e dos sentimentos os entes mais próximos e queridos por ela pudessem, impunemente, adentrar sem licença. Levei horas para reconciliá-la à descoberta que eu fizera, e levei dias para persuadi-la de que tais poemas mereciam publicação. Eu sabia, no entanto, que uma mente como a dela não poderia existir sem alguma centelha latente de ambição, e me recusei a desistir de em minhas tentativas de atiçar essa centelha em chamas”.

A coletânea de Ratchford é uma tentativa interessante, mas um tanto rebuscada, de recriar a narrativa de Gondal, inserindo nessa narrativa a maior parte da produção poética de Emily Bronte. O mais interessante, para mim, no entanto, nesta coletânea, foi o Apêndice II, no qual Ratchford coletou todas anotações do diário e notas em que Emily e Anne mencionam Gondal.

Também interessante é a conexão entre esse reino imaginário e o Morro dos Ventos Uivantes: nós percebemos que os elementos de crueldade, vingança, violência, desespero e obsessão presentes no romance também podem ser encontrado nos escritos de infância de Emily. Os poemas de Gondal estão repletos de intrigas, amores frustrados, violência, e de uma sensação penetrante de confinamento: assim como em Morro dos Ventos Uivantes, os personagens de Gondal estão presos em uma matriz de emoções avassaladoras, e são perturbados por um anseio constante de fuga. Eles são tão selvagens quanto a paisagem que habitam, suas paixões tão poderosas quanto os ventos uivantes.

Fascinante para mim é também o fato de que o universo Gondal é liderado por uma mulher, A. G. A., uma cruel rainha guerreira que coleciona uma série de amantes, apenas para levá-los à loucura, ao exílio, à prisão, à morte por coração partido ou ao suicídio. Ela é a narradora de pelo menos 14 dos 44 poemas do caderno de Gondal. A Rainha de Gondal soa como a versão feminina de um herói byroniano: uma figura tempestuosa que inspira, ao mesmo tempo, ódio e devoção, e que é capaz de trazer “todos os homens a seus pés” e levar à tragédia “todos que a amam“.

Ao contrário do ideal arquetípico de feminilidade da era vitoriana, A. G. A. não é nenhum “anjo doméstico”, e também não se encaixa no estereótipo da mulher decaída (Fallen Woman, a mulher que perdeu sua virtude e é punida). AGA é uma rainha mercurial, que não se deixa encaixar nos padrões de moralidade convencional; ela é capaz de ser, ao mesmo tempo, terna e cruel, é capaz de amar e trair com a mesma veemencia- “Na vida e na morte, uma alma sem correntes”, como Emily escreveria em um de seus poemas que não compõem o caderno Gondal.

Virginia Woolf escreveria, em 1931, em um artigo intitulado Professions for Women, que “matar o anjo doméstico faz parte da ocupação de uma escritora”. Bem, como nós podemos ver, aos dezoito anos Emily Brontë já tinha matado seu anjo – mesmo que apenas no pântano selvagem de sua imaginação.


“Minha alma já não teme coisa alguma (No coward soul is mine)

Minha alma já não teme coisa alguma,
E a escura tempestade em que sem descanso o mundo
Gira,
Não mais a abalará:
Já vejo a glória dos Céus extasiantes,
E a fé que resplandece no fogo de sua armadura
Aniquila o medo no meu ser.

Ó Deus que eu trago dentro em mim,
Deus todo-poderoso, Presença universal!
És a Vida – em meu seio Tu repousas,
E minha eternidade encontra em Ti o seu poder!

Vejo a vaidade nas suas múltiplas nuances,
Onde o homem alimenta a força do seu coração:
E vejo esta vaidade e a sua impotência
Fanadas e mortas como a erva dos campos,
Como a espuma louca das vagas no oceano,
Tentando inutilmente reanimar a dúvida,
Quando a alma já está sã e salva,
Aprisionada para sempre a Teu Ser infinito,
Através de uma certeira âncora
Lançada ao rochedo imutável da vida eterna!

Teu sopro, com amor, abraça os espaços
E penetra com sua vida os séculos eternos,
Espalha-se como um rio e cobre o nosso mundo,
Mudando ou preservando as coisas,
Dispersando-as, criando-as, trazendo-as à vida.

E se viesse o fim deste mundo e o fim dos homens,
O fim dos universos, a ruína dos sóis,
Se apenas Tu ficasses,
Serias ao mesmo tempo todas as existências.

A Morte se esforça em vão para achar um espaço,
Mas seu poder não pode aniquilar um átomo sequer.
Tu és o Ser e o Sopro,
Nada poderia abolir as Tuas formas.” – Emily Brontë, tr. Lúcio Cardoso


Bom, é isso pessoal.

Esse poema que li é a tradução de Lúcio Cardoso pra o poema No Coward Soul Is Mine (Minha Alma Não é Covarde/ Minha alma já não teme coisa alguma).

No Brasil, é possível encontrar uma coletânea de poemas de Emily Bronte, intitulada O vento da noite, com tradução de Lúcio Cardoso, publicada pela editora Civilização Brasileira, em 2016. Em Portugal, é possível encontrar uma coletânea de poemas das irmãs Bronte, intitulada Poemas Escolhidos das Irmãs Brontë, com tradução de Ana Maria Chaves, publicada pela editora Relógio d’Água, em 2014.

Se vocês tiverem algum comentário, sugestão, crítica, ou pergunta, se tiverem algum pedido para que eu leia algum texto ou fale de alguma autora, ou mesmo se quiserem participar do podcast, basta entrar em contato comigo por minhas redes sociais, que estarão linkadas nas show notes desse episódio. Eu sou  @blankgarden no Instagram, e @ablankgarden no Twitter. Caso vocês ouçam o podcast no aplicativo Anchor, vocês também podem me mandar mensagens de voz por lá. Todos os links vocês encontram no box de descrição desse episódio.

E agora eu tenho uma pergunta para você que me ouviu até aqui: Você já leu Emily Brontë? O que você acha da proposta dessa coletanea dos poemas de Gondal?

E só deixar sua opinião ou comentário nas redes sociais do podcast. Como sempre, eu deixarei uma lista de livros sobre o tema na página do podcast, para quem quiser saber mais.

Muito obrigada por terem escutado até aqui. Espero que tenham gostado, e até o próximo episódio!


Esse episódio foi escrito, produzido e apresentado por Juliana Brina, em setembro de 2020. A música tema foi baseada na Sonata para piano e violoncelo, Op. 5, composta pela britânica Ethel Smyth, em 1887, e interpretada por Martin Roscoe e Moray Welsh.


Caso tenha alguma sugestao ou queira participar de algum episódio do podcast (é tudo caseiro, nao se acanhe), é só entrar em contato comigo. Basta comentar aqui ou me enviar uma mensagem por meio de minhas redes sociais: Instagram / Twitter / Blog / Medium / Outros

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Até o próximo episódio,

J.

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